Flores funcionam como outdoors, atraindo polinizadores com sinais como cores, odores e outros estímulos. Muitos dos detalhes que tornam uma flor bonita aos olhos humanos surgiram, na verdade, como estratégias reprodutivas sofisticadas.
O principal estímulo associado à evolução floral é a interação com polinizadores —tanto os não vivos, como vento e água, mas sobretudo os vivos, como os animais. A polinização é uma via de mão dupla, em que tanto plantas quanto polinizadores se beneficiam. Enquanto estes últimos obtêm recursos como o néctar, a planta garante sua reprodução, já que seu pólen é transportado.
A capacidade de atrair insetos, aves e outros visitantes e de adequar-se à morfologia deles determina a eficiência de uma flor em ser polinizada, fecundada e gerar frutos e sementes. Por isso, linhagens com flores mais atrativas e de encaixe preciso foram favorecidas pela seleção natural.
Por milhões de anos essas interações envolveram sobretudo insetos, depois as aves. Até que, entre 30 e 20 milhões de anos atrás, um grupo singular entrou em cena na polinização de flores noturnas: os morcegos, cujo papel ainda segue incompreendido.
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Por transportarem grandes quantidades de pólen em seu corpo peludo e voarem longas distâncias, morcegos são polinizadores particularmente eficientes. Ao se agarrarem ou pressionarem o corpo contra as flores em um voo pairado, eles acabaram influenciando a seleção natural de flores grandes, abertas e robustas.
Além disso, morcegos precisam de muita energia. Para atender a essa demanda, as flores que costumam ser visitadas por eles passaram a produzir consideráveis volumes de néctar, que os morcegos consomem por meio de suas línguas especializadas.
A percepção sensorial desses animais também moldou a evolução floral. Morcegos não são cegos como dizem por aí, e muitos têm visão dicromática, sensível ao ultravioleta e ao verde, o que pode ter levado à evolução de flores com cores claras e esverdeadas. Em contrapartida, o olfato aguçado direcionou a seleção de odores fortes, frequentemente sulfurados, semelhantes a alho, repolho ou frutos fermentados.
Outros polinizadores também podem usar o olfato e a visão, mas os morcegos têm um outro sentido que lhes é exclusivo: a ecolocalização, um tipo de radar que lhes permite emitir sons que retornam como ecos, fornecendo informações sobre distância, forma e posição dos objetos no ambiente. Daí o favorecimento de flores côncavas aptas a refletir e amplificar sinais acústicos.
Flores de plantas polinizadas por morcegos muitas vezes passam despercebidas ou não são valorizadas esteticamente, dadas suas peculiaridades: nada delicadas, de cores pouco chamativas e odor pungente. Ainda assim, essas plantas (como o trapiá, coité, jatobá, pequi, macambira-de-flecha, os agaves e diversos cactos colunares, como os facheiros) desempenham papéis ecológicos fundamentais e provêm recursos importantes para os seres humanos.
Há alguns anos venho trabalhando com plantas polinizadas por morcegos na Caatinga, onde elas são particularmente abundantes. Agora, junto com minha equipe do Laboratório de Biologia Floral e Ecologia Reprodutiva na Universidade Federal de Sergipe, estamos investigando a evolução desse sistema e contando a história de como um animal frequentemente temido se une a um dos principais símbolos de afeto humano, em uma das interações ecológicas mais fascinantes já documentadas.
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Fonte ==> Folha SP – TEC