A seleção do Haiti foi mais do que OK na peleja contra a Escócia. Rum versus uísque. Compensou a falta de técnica com entusiasmo. Mas não foi nada OK a decisão da Fifa de vetar o uniforme do time caribenho. A camisa original vinha com a imagem da batalha de Vertières, em que o exército de escravizados derrotou as forças de Napoleão e conquistou a independência.
A imagem histórica foi interpretada como mensagem política. A ironia é que a Fifa inventou um prêmio de paz para Trump. Haja topete. O Haiti foi a única nação do mundo que tomou o poder com uma revolução de escravizados. Nesse aspecto, o Haiti não é aqui, já que o Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão.
Na sexta-feira (19), essas seleções se encontram. A do Brasil não está OK, com Ancelotti refém do centrão formado por jogadores da bancada das bets e dos parças. Ainda menos OK foram as denúncias de abusos durante a presença militar brasileira no Haiti, de 2004 a 2017.
A expressão de duas letras tem várias origens possíveis. Uma delas, sabe-se lá porquê, tem a ver com o porto haitiano de Aux Cayes, cuja pronúncia é mais ou menos “okáie”. A tradução seria “nas ilhotas”. O fato é que deste porto partiam barcos com tonéis de rum para exportação. Bastante OK.
O rum haitiano e o das outras ex-colônias francesas no Caribe é o chamado rhum agricole, que se diferencia por ser um destilado do caldo da cana e não do melaço. Daí a parecença com a cachaça. O mais famoso é o Barbancourt, que existe desde 1862, considerado um dos melhores do mundo. Suas instalações foram parcialmente destruídas pelo terremoto de 2010, mas voltaram a funcionar.
A nação que divide a antiga ilha de Hispaniola com a República Dominicana também tem o rum-raiz, produzido de forma artesanal. É batizado de clairin, termo créole (misto de francês com dialetos locais) para claro, transparente. De 500 a 600 pequenas (algumas maiores) destilarias se espalham pelo mapa. Utilizam técnicas do século 18, evitando elementos químicos no trato da cana, que é sempre de uma ancestral variedade indígena.
Como o escrete da camisa, o clairin, de alto teor alcoólico, é menos refinado, mas é mais autêntico, para lá de OK. Essa forte identidade cultural atraiu bartenders mundo afora, que vêm experimentando o espírito haitiano em novas receitas. Comparam a personalidade do clairin com a do mezcal, que tem características semelhantes, mas o gosto deve lembrar cachaças mais artesanais.
Para os antigos escravizados, principalmente aqueles que seguiam a religião vodu, a bebida tinha a propriedade de afastar o diabo. Daí que a ofereciam aos espíritos nas cerimônias. Ainda hoje muitos têm o costume de derramar um pouco no chão, gesto equivalente ao nosso folclórico “para o santo”.
Talvez precisemos dessa ajuda na Copa, seja com rhum agricole, clairin ou pinga. O que é muito OK.
Kill-Devill
- 40 ml de rhum agricole, clairin ou cachaça clara artesanal
- 10 ml de Chartreuse Verte
- 5 ml de xarope de açúcar mascavo
- Dois lances de Angostura
Mexa os ingredientes com gelo e coe para uma taça Nick & Nora. Decore com uma rodela de casca de limão.
Fonte ==> Folha SP