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Covid-19: redução de presença humana afetou vida selvagem – 25/05/2026 – Ciência

Covid-19: redução de presença humana afetou vida selvagem - 25/05/2026 - Ciência

O Homo sapiens não precisa derrubar árvores ou construir estradas para perturbar a vida selvagem. A mera presença da nossa espécie pode alterar a forma como outros animais utilizam o espaço e recursos, segundo uma nova análise de movimentos durante a pandemia de Covid-19.

Os pesquisadores combinaram dados de rastreamento por GPS de 37 espécies de aves e mamíferos selvagens com dados de localização de celulares em todo o território dos Estados Unidos. Para dois terços dessas espécies, a presença humana pareceu afetar a extensão do espaço geográfico usado pelos animais ou a variedade de seus ambientes, de acordo com os pesquisadores.

Os impactos foram complexos e, em muitos casos, os efeitos da presença humana estavam entrelaçados com os efeitos da modificação da paisagem. Por exemplo, quando humanos deixaram um espaço, alces e veados-mula expandiram o uso de terras. Porém, essas repercussões foram mais pronunciadas em locais rurais ou não desenvolvidos do que em áreas altamente urbanizadas, como cidades.

“Não conseguimos entender o quadro completo sem informações sobre esses dois fatores”, disse a ecologista Ruth Oliver, da Universidade da Califórnia em Santa Barbara, coautora do novo artigo.

Também houve variação na forma como as espécies foram atingidas. “Os corvos em Yellowstone estão se comportando de forma muito diferente dos cervos-de-cauda-branca em Staten Island”, afirmou o ecologista Scott Yanco, do Zoológico Nacional e Instituto de Biologia da Conservação do Smithsonian, coautor do estudo.

A pesquisa, publicada na revista Science na última quinta-feira (21), foi conduzida por uma grande equipe internacional como parte da Iniciativa de Biomonitoramento da Covid-19, que vem estudando como os animais responderam à desaceleração da atividade humana relacionada à pandemia.

Cientistas sabem há muito tempo que, à medida que as pessoas e seus assentamentos se expandem pela paisagem, os animais selvagens podem diminuir ou até desaparecer. No entanto, nem sempre foi fácil identificar por que isso acontece. A perda de biodiversidade é resultado de mudanças no ambiente físico? Ou a simples presença de seres humanos vivos é suficiente para causar um impacto?

Tem sido difícil responder a essas perguntas em parte porque esses fenômenos costumam andar de mãos dadas: tende a haver mais humanos em ambientes como cidades do que em áreas não desenvolvidas, como florestas protegidas. Além disso, é um desafio obter dados detalhados sobre a atividade humana.

A pandemia —durante a qual as construções humanas permaneceram intactas, mas as pessoas ficaram em grande parte em casa— proporcionou uma oportunidade de separar esses efeitos. Pesquisas anteriores sugeriram que os movimentos de animais selvagens mudaram quando ordens rígidas de lockdown estavam em vigor.

A nova pesquisa, no entanto, usou o rigor das políticas de lockdown como indicador da atividade humana. Os cientistas recorreram a dados de localização de celulares para medir a presença humana de forma mais direta. Uma empresa privada que coleta esses dados agregados e anonimizados os disponibilizou temporariamente para pesquisadores que estudavam a mobilidade humana durante a pandemia.

Os pesquisadores estimaram quantas pessoas estavam fisicamente presentes, a cada semana, em setores censitários dos EUA em 2019 e 2020.

Também coletaram dados sobre os movimentos de mais de 4.500 aves e mamíferos selvagens que haviam sido equipados com rastreadores para outros projetos científicos antes da pandemia. Isso permitiu avaliar a área geográfica percorrida por cada animal.

Os pesquisadores também investigaram se a atividade humana estava empurrando os animais selvagens para novos tipos de habitats, rastreando a amplitude de seus nichos, ou seja, a variedade de ambientes pelos quais se deslocavam a cada semana. Um animal que permanecia em um tipo específico de habitat —digamos, locais frescos, de baixa altitude e com vegetação densa— tinha um nicho estreito, enquanto uma criatura que passava tempo em lugares com condições mais variadas, um nicho amplo.

“Não estamos apenas observando como o movimento deles mudou, mas como esse movimento está afetando a experiência deles em um ambiente”, disse Yanco.

Muitas espécies —entre as quais de coiotes e de alces — cobriram uma menor área quando havia mais pessoas presentes, sugerindo que os humanos estavam reduzindo seu espaço de vida. O efeito frequentemente era amplificado em áreas não urbanizadas. Isso pode ser porque animais que vivem em habitats mais preservados eram mais sensíveis à presença humana, ou porque os animais que vivem em áreas mais urbanizadas já haviam reduzido o uso de seu espaço o máximo que podiam.

Houve uma variação considerável entre as espécies. Por exemplo, a presença humana pareceu aumentar a quantidade de espaço utilizado pelos lobos-cinzentos, que há muito tempo são caçados e perseguidos por humanos. Uma possível explicação é que esses espécimes podem estar percorrendo distâncias maiores em um esforço para evitar encontros potencialmente fatais com pessoas.

As consequências dessas mudanças comportamentais permanecem desconhecidas. “Isso é evidência de que eles estão se adaptando com sucesso a nós, ou é evidência de pressão sobre eles?”, disse Oliver.

É isso que os pesquisadores esperam explorar em seguida. Contudo, mesmo as descobertas atuais sugerem que a conservação eficaz da vida selvagem exigirá compreender e abordar tanto a modificação do habitat quanto a presença humana.

Elas também levantam a possibilidade de que mesmo mudanças modestas e de curto prazo na atividade humana, como restringir o acesso a um habitat animal particularmente crítico durante a temporada de reprodução ou migração, poderiam gerar benefícios significativos para a conservação.

“Existe a oportunidade de coexistência de uma forma inteligente e equilibrada”, afirmou Oliver.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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