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Crença em Jesus próximo de Deus surgiu cedo entre cristãos – 31/12/2025 – Darwin e Deus

Pessoa ajoelhada com cabeça sobre túmulo de pedra em interior de construção antiga. Dois monges vestidos com hábitos escuros caminham ao fundo próximo a paredes de pedra e arcos. Iluminação baixa destaca o túmulo e a figura ajoelhada.

Eu já tinha dado a deixa no nosso episódio anterior da série: a crença na ressurreição de Jesus por parte de seus primeiros seguidores é a chave para o processo de desenvolvimento teológico que acabaria por considerá-lo Deus feito homem, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, no catolicismo e na grande maioria das demais igrejas cristãs de hoje.

Desta vez, meu plano é examinar como isso começou a se desenhar nos textos canônicos (“oficiais”) do Novo Testamento. Antes disso, porém, vale a pena retomar a ligação que existe entre essa ideia e o pensamento apocalíptico, do qual também falamos no texto que precedeu este.

O primeiro ponto central aqui é reconhecer que algum tipo de esperança mais geral sobre a ressurreição dos mortos estava presente no judaísmo desde pelo menos alguns séculos antes do nascimento de Jesus.

Vemos isso, por exemplo, no Livro de Daniel, um dos mais recentes da Bíblia Hebraica (também já citado aqui anteriormente): “E muitos dos que dormem no solo poeirento acordarão, alguns para a vida eterna e outros para o opróbrio, para o horror eterno” (Dn 12,2). No Segundo Livro dos Macabeus, aceito como canônico por católicos e ortodoxos, a coragem de resistir às perseguições pagãs é atribuída justamente a essa fé na ressurreição: “O Rei do mundo nos fará ressuscitar para uma vida eterna” (2 Mc 7,9).

Havia uma conexão muito próxima entre esse evento e os outros elementos das esperanças apocalípticas. Ou seja, a ressurreição dos mortos era vista como um dos grandes sinais de que o fim dos tempos e a intervenção definitiva de Deus na história estava prestes a acontecer.

Quando os seguidores mais próximos de Jesus se convencem de que ele havia ressuscitado, é muito provável que eles tenham interpretado essa crença à luz da esperança apocalíptica —até porque, ao que tudo indica, a própria pregação de Jesus estava repleta dessas imagens, resumidas com a ideia da vinda do “Reino de Deus”.

A equação, portanto, parece ter sido: se Jesus ressuscitou, isso significa que a era apocalíptica está definitivamente inaugurada. Ele corresponde às “primícias”: o primeiro fruto a amadurecer na árvore do fim dos tempos. Isso significa que 1) sua pregação estava correta e 2) ele goza de uma relação ainda mais especial com o Deus de Israel do até eles mesmos imaginavam.

A grande pergunta, claro, envolve a natureza exata dessa relação, e os textos do Novo Testamento não parecem apresentar uma resposta uniformizada, embora haja diversos pontos em comum, como o uso da expressão “Filho de Deus”. No caso dos Evangelhos, por exemplo, apenas Mateus e Lucas apresentam duas histórias distintas sobre o nascimento de Cristo, buscando mostrar sua filiação divina desde a concepção no útero de Maria.

Já o Evangelho de Marcos, provavelmente o mais antigo da coleção, não aborda o tema do nascimento, embora chame Jesus de “Filho de Deus” desde o primeiro versículo. Por fim, o de João, provavelmente o último a ser escrito, apresenta o Nazareno como o Verbo/a Palavra de Deus, anterior à própria criação do Cosmos, que também “era Deus” desde o princípio.

É tentador olhar para essa sequência e imaginar que se trata de uma progressão linear, na qual, em Marcos, a filiação divina de Jesus funcionaria quase como uma espécie de adoção, recuando cada vez mais no tempo —primeiro para o momento da concepção, em Mateus e Lucas, e por fim para antes de todos os tempos, em João.

O principal elemento que bagunça essa ordem, porém, está nas cartas do apóstolo Paulo —paradoxalmente, o mais antigo autor cristão cujos textos chegaram até nós. Na Epístola aos Filipenses, que dataria mais ou menos do ano 60 d.C., Paulo retrata Jesus como alguém que, originalmente “estando na forma de Deus, não usou de seu direito de ser tratado como um deus, mas se despojou (…) tornando-se semelhante aos homens”.

Se não é exatamente a formulação do Evangelho de João, a passagem indica, de qualquer modo, que essa “alta cristologia” —a aproximação entre Jesus e a divindade— emergiu relativamente bem cedo na crença cristã, ao menos em algumas tradições do movimento religioso.

A presença precoce da ideia, no entanto, não significa que o processo pelo qual ela se consolidou tenha sido simples. Vamos examinar a diversidade de ideias sobre o tema fora do Novo Testamento na próxima parte desta série. Até lá!



Fonte ==> Folha SP – TEC

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