Voltamos à nossa série Como Deus nasceu, sobre as origens do monoteísmo, dedicando este sexto capítulo à figura do deus Baal. Entre todas as divindades “pagãs” do mundo antigo citadas na Bíblia, Baal provavelmente é a que ganha mais destaque. Leitores do Antigo Testamento decerto recordam o confronto épico entre o profeta israelita Elias, fiel servo do Deus bíblico Iahweh/Javé, e os 450 profetas de Baal no Primeiro Livro dos Reis. (No relato bíblico, como seria de esperar, apenas Iahweh demonstra ter poder verdadeiro, e Elias sai vitorioso.)
A força da rivalidade com Baal não é por acaso, porque o Deus bíblico reproduz justamente muitas das características que os povos do Oriente Próximo antigo, no período anterior ao surgimento dos reinos israelitas, atribuía a Baal. Explico a seguir esses paralelos e a maneira como eles foram transformados pela visão de mundo monoteísta.
Como vimos brevemente no nosso episódio sobre o panteão (conjunto de deuses) do politeísmo da terra de Canaã, representado principalmente pelos textos da cidade de Ugarit na Idade do Bronze, Baal tem uma série de características muito marcantes. Ele é um jovem deus guerreiro, da “segunda geração” divina, que se torna chefe do panteão ao receber o poder das mãos do deus-patriarca El.
Suas armas são o trovão e o raio, que ele usa para enfrentar inimigos divinos como Yam, o Mar, e Mot, a Morte, e, com esses poderes “meteorológicos”, ele também garante a fertilidade da terra por meio da chuva. Seu palácio fica no alto do monte Sapan (provavelmente o atual Jebel Aqra, na fronteira entre a Síria e a Turquia e perto do Mediterrâneo).
Bem, Iahweh tem diversas semelhanças com esse quadro. Deus não apenas é chamado de “Senhor dos Exércitos” na Bíblia hebraica (ou de “homem de guerra” no livro do Êxodo) e domina o trovão, o raio e o controle da fertilidade da terra como também tem os mesmos arqui-inimigos que Baal.
Em diversos textos espalhados pelo cânone bíblico, fala-se de uma batalha primordial de Iahweh contra o Mar, como neste trecho do Salmo 74:
“Tu porém, ó Deus, és meu rei desde a origem. Tu dividiste o mar com o teu poder, quebraste as cabeças dos monstros das águas; tu esmagaste as cabeças do Leviatã dando-o como alimento às feras selvagens.”
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O Leviatã, um monstro marinho, também é citado como um dos inimigos de Baal nos textos de Ugarit, junto com outra criatura monstruosa, o Tannin ou Tunnanu (citado, por exemplo, no capítulo 7 do livro de Jó, e traduzido como “monstro marinho” na tradução católica da CNBB que tenho comigo neste momento).
Em outros textos da Bíblia hebraica, curiosamente, Leviatã é retratado como uma espécie de animal de estimação de Iahweh, que o criou para seu divertimento. É o caso do Salmo 104: “Bem como Leviatã, que formaste para com ele te divertires”. Por fim, as próprias passagens do Gênesis e do Êxodo que mostram Deus com controle absoluto sobre o oceano, seja na criação, seja na destruição dos egípcios no mar Vermelho, podem ser interpretadas como versões “desmitologizadas” do combate entre Baal e os seres sobrenaturais marinhos.
E, como cereja do bolo, o monte Sapan (Zafon, em hebraico) também é descrito como a morada de Iahweh no Antigo Testamento.
A hipótese mais provável, portanto, é que Iahweh assume os principais papéis da divindade mais antiga ao se tornar a figura mais importante do panteão israelita. Antes de esse panteão desaparecer de vez e Iahweh ficar sozinho, porém, resta-nos investigar a mais intrigante das associações entre ele e os antigos deuses. Será que, em algum momento, acreditou-se que ele tinha uma consorte divina? Esse será o tema da próxima parte da série. Até lá!
Fonte ==> Folha SP – TEC