Cabeçadas estavam na moda no final do reinado dos dinossauros. Durante o período Cretáceo Superior, várias linhagens de dinossauros desenvolveram ornamentos cranianos perigosos, entre os quais o paquicefalossauro de cabeça em forma de domo e o Pachyrhinosaurus, que ostentava um toco de osso nodoso.
Outros grupos, incluindo terópodes semelhantes a aves, parecem ter evitado se chocar de frente. Mas uma espécie recém-descoberta semelhante a um raptor no México revela que alguns desses pesos-leves podem ter sido mais do que capazes de rachar crânios.
Paleontólogos descreveram em um artigo, publicado em 9 de janeiro na revista Diversity, um conjunto de ossos espessos no topo da caixa craniana do dinossauro que se fundiram em uma protuberância nodosa. Eles propuseram que o espécime, batizado de Xenovenator espinosai, utilizava a estrutura para se chocar contra seus rivais.
“Dinossauros semelhantes a raptores são frequentemente imaginados principalmente como predadores ágeis usando suas garras e dentes”, disse o paleontólogo Héctor Rivera-Sylva, do Museo del Desierto em Saltillo (México), autor principal do artigo. “O Xenovenator nos lembra que o comportamento dos dinossauros provavelmente era muito mais diverso e complexo.”
Em 2000, Martha Aguillón-Martinez, uma das colegas e coautoras de Rivera-Sylva, descobriu a caixa craniana fossilizada do Xenovenator enquanto pesquisava a formação Cerro del Pueblo, um afloramento de rochas no nordeste mexicano. Há cerca de 73 milhões de anos, a área era uma costa pantanosa habitada por vários dinossauros.
Os pesquisadores concluíram que o crânio fossilizado representava um Troodontidae, de um grupo de dinossauros onívoros, semelhantes a aves, que tinham olhos grandes voltados para frente e alguns dos maiores cérebros entre os dinossauros não aviários. No entanto, nem todos os cientistas estão convencidos de que o Xenovenator era um Troodontidae.
“É um espécime tão estranho”, afirmou o paleontólogo David Varricchio, da Universidade Estadual de Montana (Estados Unidos), que não participou do novo estudo. É possível, segundo ela, que o fóssil seja parte do crânio de um dinossauro maior.
A estranha forma do crânio, que tem uma protuberância de osso enrugado na frente, contribui para a confusão. Para examinar o interior do crânio, os cientistas fizeram uma tomografia computadorizada do fóssil. A análise revelou que os ossos, que se fundiram em padrões em ziguezague, tinham quase 1,3 centímetro de espessura em alguns pontos e exibiam uma estrutura interna esponjosa.
Como o crânio reforçado provavelmente não ajudava o Xenovenator a caçar, os pesquisadores levantaram a hipótese de que a estrutura era uma característica usada para golpear rivais. “Fósseis raramente preservam comportamentos diretamente, então encontrar sinais morfológicos tão fortes de combate em um terópode de pequeno porte foi inesperado”, disse Rivera-Sylva.
A protuberância óssea na cabeça do Xenovenator lembra a estruturas vistas em vários outros animais que batem cabeças, do passado e do presente. Ela se assemelha à densa cúpula do paquicefalossauro e os ossos fundidos do crânio, aos vistos em búfalos, bois-almiscarados e girafas. Além disso, a estrutura esponjosa dentro dos ossos do Xenovenator parece o tecido absorvedor de choque dentro das partes ósseas do calau-de-capacete, ave que se choca contra outra no ar.
Rivera-Sylva não está surpreso que esses espécimes de cérebro grande competiam por recursos. Varricchio também acha provável que os Troodontidae brigassem entre si. Sua equipe descobriu, por exemplo, que esses animais frequentemente voltavam aos mesmos locais para botar seus ovos, o que pode ter resultado em conflitos por melhores locais de nidificação.
A competição aumentou durante o período Cretáceo Superior, quando um conjunto diversificado de dinossauros lotou os ecossistemas. Alguns desenvolveram armas mortais para enfrentar rivais, enquanto outros evoluíram chifres vistosos e cristas carnudas para atrair parceiros.
Isso fez do Xenovenator uma criatura de seu tempo. “Em vez de ser uma anomalia, ele se encaixa em um padrão mais amplo”, disse Rivera-Sylva. “Os dinossauros no final do Cretáceo não estavam apenas evoluindo novas formas de comer ou se mover, mas novas maneiras de interagir uns com os outros.”
Fonte ==> Folha SP – TEC