A busca cada vez mais maior pela conveniência e entregas rápidas tem levado a uma disputa acirrada por espaços em armazéns logísticos ao redor dos centros urbanos, onde o consumo está mais concentrado. A tentativa é criar estoques avançados, descentralizando a operação. Foi ao acompanhar de perto esse movimento que Daniela Costa, fundadora e CEO da Homedock, e-commerce de móveis e decoração com sede em São José do Rio Preto (SP), pilotou um projeto com sistema integrado de gestão na grande São Paulo.
“Há um ano e meio operamos nesse modelo com o Mercado Livre e desde novembro de 2025, começamos com serviço próprio a partir do estoque avançado”, afirma. “Fazemos entregas para 40 cidades a partir do armazém de Osasco (SP). O prazo de entrega das salas de jantar, que era de dez dias caiu para três. Além de reduzir custos, traz conveniência para o cliente”, acrescenta. A Homedock movimentou R$ 60 milhões em 2025 e a expectativa é faturar R$ 68,5 milhões este ano.
A empresária afirma que não foi fácil encontrar um operador logístico parceiro em decorrência da plena ocupação dos armazéns. “Visitei quatro operações na capital, sem sucesso. Móvel é um produto complexo pelo peso, ocupa uma área grande e exige cuidado no manuseio”, diz. “Optamos por rodar o piloto com a JEW Transportes, que já operava nossas cargas”. Em três meses, o projeto movimentou R$ 1,5 milhão (preço de venda), o equivalente a três carretas de móveis.
Wagner Pijanowaki, sócio-fundador da JEW Transportes, assinala que a clientela passou a demandar mais pelos serviços de entrega de última milha, um desafio quando se trata de linha pesada. “Começamos com um armazém de 1000 m² e a ideia e que em dois anos a armazenagem responda por 35% do negócio. Hoje, não passa de 10%”, afirma. “O forte continua sendo a distribuição”.
Segundo ele, o grande desafio está na integração de estoque com a gestão de pessoas, porque se errar na expedição, pode compromete todo o processo”. Com frota própria, composta por trucks e carretas, a empresa pretende faturar R$ 11 milhões neste ano, alavancados pelo serviço de armazenagem.
De acordo com o relatório MarketBeat Industrial, divulgado pela Cushman & Wakefield, até setembro de 2025 foram absorvidos 1,18 milhão de metros quadrados de novas áreas de galpões de alto padrão no país — empreendimentos planejados para atender às necessidades de empresas que operam com logística de armazenagem e distribuição.
A taxa de vacância nacional, de um parque estimado em 36 milhões de metros quadrados, caiu para 7,98%, indicando equilíbrio entre oferta e demanda, com absorção acima do volume de novas entregas, que foi de 201,9 m². O preço médio pedido pelos espaços de alto padrão alcançou R$ 26,96/m², sendo que no Estado de São Paulo — com 261,5 mil m² de absorção líquida e responsável por mais de 50% do volume nacional e vacância de 8,7% — o preço sobe para R$ 29,01 m². As regiões de Cajamar (R$ 33,62 o m²), Guarulhos (R$ 35,45 o m²) e capital paulista (R$ 36,48 o m²) continuam sendo as mais caras do país.
“Há um boom de armazenagem, principalmente depois da pandemia, com a mudança de comportamento de consumo e avanço do e-commerce”, afirma Guilherme Sampaio, CEO da JSL, que tem sob seu guarda-chuva a Intralog, que conta com 2 milhões de m² sob gestão e uma receita de R$ 2,5 bilhões. Segundo ele, se antes a distribuição geográfica contava com apoio de subsídios fiscais, em breve o desafio estará em redesenhar o mapa das operações de armazenagem logística no país, quem opera e quem aluga, por conta da reforma tributária.
Na visão Sergio Galluci, diretor comercial e de marketing da Tópico — líder nacional em fabricação, aluguel e venda de galpões de lona e aço destinados à armazenagem —, o segmento registra um maior nível de profissionalização, o que eleva a régua de exigências. “Esse é um mercado de baixa barreira de entrada. Porém, tem suas peculiaridades”, diz. “Exige capital intensivo, estruturas que demandam altos investimentos e know-how para construção e montagem, além de domínio da operação e escala”.
Com faturamento de R$ 300 milhões em 2025, a Tópico conta com cerca de 3 milhões de metros quadrados entre vendidos e locados, com estimativas de crescimento de 10% em 2026.
Fonte ==> Exame