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Documentários resgata assombro da fauna extinta do Brasil – 23/05/2026 – Reinaldo José Lopes

Documentários resgata assombro da fauna extinta do Brasil - 23/05/2026 - Reinaldo José Lopes

Astrapotério, toxodonte, purussauro, forusracídeo: se houvesse alguma justiça no mundo, todo esse palavrório greco-latino seria tão familiar aos ouvidos das crianças brasileiras quanto aquele arroz de festa gringo chamado Tyrannosaurus rex.

A gente só ama o que conhece, afinal de contas, e a paixão pelos mundos pré-históricos que um dia existiram neste nosso pedaço de chão quase nunca é regada o suficiente para florescer. A boa notícia é que as coisas estão começando a mudar, como mostra a série documental “O Brasil Antes de Nós”, cujo primeiro episódio já está disponível no YouTube.

Idealizada pelo casal formado pelo paleontólogo Bruno Augusta e pela bióloga marinha Amanda Gomes, do canal Zoomundo, a série não precisa dos milhões de libras esterlinas gastos em computação gráfica pela BBC nem do vozeirão shakespeariano de David Attenborough para cativar o espectador.

Em vez disso, basta prestar atenção no tamanho absurdo do crânio de purussauro ao lado da cabeça de Augusta, ou da desproporção do úmero (o osso do braço que vai do ombro ao cotovelo) de um eremotério ao lado do bracinho do apresentador.

Expliquemos, porém, os palavrões. O purussauro era um jacaré gigantesco da Amazônia de 8 milhões de anos atrás, que alcançava dez metros. Os eremotérios estão entre as maiores preguiças-terrícolas de todos os tempos, sendo equivalentes em tamanho a um elefante-africano, e viveram até o fim da Era do Gelo em locais como a Bahia.

Os toxodontes, que lembram uma mistura de rinoceronte com hipopótamo (sem ser parentes próximos de nenhum dos dois), estavam presentes em diversas regiões do Brasil, também até o fim da Era do Gelo. Já os astrapotérios viviam em áreas como o Rio de Janeiro, há cerca de 50 milhões de anos, e lembravam uma mistura bizarra de anta, elefante e rinoceronte. As aves da lista por fim são representadas pelos forusracídeos, “supersseriemas”, com cabeça e bico maciços, que podiam ser mais altas que um ser humano.

Os 45 minutos do primeiro episódio (há mais quatro programados, cada vez recuando mais no tempo) passam voando, graças à mistura competente de poucas e boas animações, visitas a museus, sítios paleontológicos e entrevistas. É mais do que suficiente para explicar como sabemos o que sabemos sobre o passado da biodiversidade brasileira. Ouso dizer que, depois de assistir, o T. rex talvez pareça só mais do mesmo.

Não posso encerrar esta coluna sem chamar a atenção para outro aspecto essencial do êxito de “O Brasil Antes de Nós”: o surgimento de um ecossistema robusto de divulgação científica neste país.

Escrevo “surgimento”, e não “criação”, porque os pesquisadores e/ou divulgadores que se uniram para colocar o projeto de pé não estão debaixo de nenhum guarda-chuva governamental (e muito menos empresarial). Em vez disso, cresceram “na unha”, na raça, e aprenderam a colaborar no âmbito de iniciativas voluntárias e informais, entre as quais merece destaque o selo Science Vlogs Brasil.

Quem conhece um pouco desse esforço reconhecerá nos créditos do documentário, além da equipe do Zoomundo, os criadores do canal Olá, Ciência! e, nas animações, paleoartistas talentosos como Johnny “Mingau” Pauly. O resultado não faria feio em nenhuma grande emissora de TV aberta –isso, é claro, se tais emissoras tivessem coragem de parar de apostar no mais fútil denominador comum. Sonhar não custa nada.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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