O ataque terrorista de 7 de outubro de 2023 deveria ter unido a comunidade internacional contra a barbárie. A brutalidade do massacre, a violência contra civis e a tomada de reféns exigiam respostas rápidas e inequívocas. No entanto, prevaleceram a manipulação de narrativas, a relativização da violência e a instrumentalização política de uma tragédia que deveria mobilizar valores universais.
Dois anos depois, o balanço é amargo: a governança global mostrou-se incapaz de proteger a vida e de construir consensos mínimos. A ONU, já marcada pela paralisia, não apenas fracassou em mediar o conflito, como se tornou cúmplice de uma polarização que ignora princípios éticos e, em certos momentos, legitima setores ligados ao terrorismo. É um fracasso não apenas diplomático, mas civilizatório.
A criação de um Estado palestino não pode ser fruto de imposição unilateral, mas de um processo coletivo de pacificação, com participação de Israel, palestinos e mediadores genuinamente comprometidos com a paz. O que preocupa, porém, é o patrocínio de países que desconsideram a influência de organizações terroristas que negam o direito de Israel existir e pregam sua destruição. Nessas condições, não há terreno fértil para a paz. Nenhuma solução imposta de fora, sem garantias de reconhecimento mútuo, poderá produzir estabilidade.
A história demonstra que a exclusão gera ressentimento e violência. O Tratado de Versalhes, ao humilhar a Alemanha após a Primeira Guerra, não promoveu estabilidade, mas semeou o caminho da Segunda. O desmembramento da Hungria deixou cicatrizes políticas duradouras. Repetir essa lógica no Oriente Médio é insistir em erros já conhecidos, agora com riscos potencialmente ainda maiores.
Não se podem ignorar, contudo, os equívocos de Israel. Seu direito à autodefesa é legítimo, mas algumas respostas militares enfraqueceram apoios internacionais e alimentaram a espiral de violência. Em vez de fortalecer sua legitimidade, certas estratégias abriram espaço para narrativas distorcidas e para os que desejam sua eliminação.
O Brasil poderia ter exercido papel histórico de mediação. Preferiu, no entanto, projetar-se como liderança do Sul Global, priorizando a retórica ideológica em detrimento do diálogo. Com isso, perdeu credibilidade e a chance de protagonismo em um dos momentos mais críticos da política internacional recente.
Entre as consequências mais graves desse cenário está a escalada da intolerância, em especial do antissemitismo. Em várias regiões, preconceitos antigos reapareceram com força, legitimados por discursos políticos que se escondem atrás da linguagem da justiça. A tragédia humana deixou de ser vista como drama universal e passou a ser utilizada como combustível para divisões ideológicas —um retrocesso civilizatório profundo.
Dois anos depois, o que se constata é um fracasso coletivo: não avançamos rumo à paz porque trocamos valores por narrativas; não promovemos inclusão porque preferimos a exclusão; não alcançamos justiça porque optamos pela retórica, não pela construção de consensos.
A lição é clara: a história pune a arrogância ideológica e recompensa o caminho, difícil mas indispensável, do diálogo. Enquanto a comunidade internacional usar tragédias como instrumentos de poder, permaneceremos presos a ciclos de violência e intolerância.
O mundo não precisa de novos muros —físicos, políticos ou ideológicos—, mas de pontes. Precisa recuperar o pluralismo, a capacidade de ouvir o outro e a coragem de enfrentar o extremismo sem relativizações. Só assim o 7 de Outubro poderá deixar de ser símbolo de fracasso da governança global para se tornar ponto de virada em direção à paz.
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Fonte ==> Folha SP