O retorno do fenômeno climático El Niño acende um alerta no Rio Grande do Sul diante da possibilidade de um novo período de chuvas intensas, temporais e cheias de rios nos próximos meses. A preocupação ganhou força após atualização recente do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), baseada em análises de centros meteorológicos internacionais, apontar que o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial já caracteriza oficialmente o estabelecimento do fenômenoque pode alcançar intensidade forte durante a primavera austral de 2026.
Em entrevista ao Jornal do Comércio neste sábado (13), a meteorologista da MetSul Meteorologia, Estael Sias, afirmou que os modelos climáticos vêm indicando, desde o ano passado, um elevado potencial de intensificação do El Niño entre outubro e dezembro. Segundo ela, o fenômeno historicamente está associado a períodos de chuva acima da média no Estadoembora os impactos dependam da combinação de diversos fatores atmosféricos.
“Um evento forte não significa, necessariamente, consequências fortes”, observou a meteorologista. Ela ressalta que outros elementos climáticos podem intensificar ou amenizar os efeitos do aquecimento das águas do Pacífico Equatorial.
Ao analisar a tragédia climática de maio de 2024, considerada a maior catástrofe natural do Rio Grande do Sul desde 1941, Estael destacou que o desastre não foi provocado exclusivamente pelo El Niño. Conforme explicou, o cenário foi resultado da combinação entre o fenômeno climático e uma sucessão de enchentes registradas em 2023, que deixaram rios cheios e o solo saturado no início de 2024.
Para Estael, a dimensão do desastre também esteve ligada à vulnerabilidade social e estrutural existente no Estado. “O desastre não é apenas a chuva, mas a incidência de precipitação em uma área vulnerável e densamente povoada”, afirmou. Segundo ela, havia sistemas de proteção despreparados para aquele volume de água e uma grande população vivendo em áreas ribeirinhas.
Mesmo dois anos após as enchentes, a meteorologista avalia que o Rio Grande do Sul ainda enfrenta consequências econômicas, sociais e emocionais da tragédia. Por isso, a vulnerabilidade do Estado continuará sendo um fator decisivo diante de novos episódios de chuva extrema.
Historicamente, anos de El Niño costumam registrar enchentes importantes no território gaúcho, como ocorreu em 1941, 1982/83, 1996/97 e 2015/16. Apesar disso, Estael pondera que não é possível comparar diretamente esses períodos, já que, em todos eles, o fenômeno atuou em conjunto com outras variáveis atmosféricas.
A previsão para os próximos meses indica aumento da frequência de chuvas e precipitações acima da média climatológicaelevando o risco de eventos extremos, tempestades severas, deslizamentos e enchentes regionalizadas. A meteorologista observa que podem haver episódios simultâneos de cheia em dois ou três rios, com possibilidade de alertas antecipados entre 15 e 20 dias.
O cenário também preocupa setores econômicos, especialmente a agricultura. Conforme Estael, o excesso de chuva pode reduzir a produtividade no campoelevar o risco agrícola e pressionar os preços dos alimentos. “Será um ano de muito trabalho para a Defesa Civil e de grandes desafios para os agricultores”, afirmou.
A combinação entre maior frequência de chuva, possibilidade de eventos extremos e a fragilidade estrutural ainda presente após a enchente de 2024 mantém o RS em estado de atenção para os próximos meses.
Fonte ==> Folha SP