Andre Chaves
Vice-presidente da unidade de negócios da Falconi especializada em Indústria de Base e Bens de Capital
A competitividade da indústria brasileira depende cada vez mais da forma como as empresas gerenciam sua energia. Mais do que um componente de custo, o tema tornou-se estratégico diante da pressão por eficiência e redução de emissões. Segundo o Balanço Energético Nacional (BEN) 2026, da Empresa de Pesquisa Energética (EPE)indústria e transportes concentram cerca de 66% do consumo total de energia do país no último ano.
Nesse contexto, três caminhos principais vêm se consolidando como alternativas para reduzir emissões sem comprometer desempenho econômico: a revisão do mix energético utilizado pelas empresas, o avanço em eficiência operacional e a implementação de projetos estruturais de capital voltados à transição energética.
O Brasil parte de uma posição relativamente favorável nesse processo. Dados do BEN 2026 mostram que 65,1% da energia consumida pela indústria nacional já é proveniente de fontes renováveis. A ampliação dessa participação reduz a dependência de combustíveis fósseis e a exposição à volatilidade dos preços. Além disso, levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) aponta que 48% das empresas industriais já investiram em fontes limpas e 42% avaliam projetos de autoprodução.
Mesmo com esse avanço, ainda há espaço relevante para ganhos de eficiência. Ou reportar “Roteiro de Ações de Eficiência Energética”também produzido pela EPEaponta que melhorias em equipamentos como motores elétricos, compressores, bombas e sistemas de cogeração podem gerar reduções significativas no consumo energético. Entre as iniciativas mais frequentes estão a implantação de sistemas de gestão de energiao reaproveitamento de calor residual, a automação de utilidades industriais e o monitoramento contínuo de indicadores de desempenho energético.
Em muitos casos, porém, alcançar reduções mais expressivas de emissões exige investimentos estruturais. Projetos de modernização eles sistemas de utilidades industriais, implantação de cogeração, geração solar ou eólica, redes de calor industrial e soluções de armazenamento de energia tendem a ganhar protagonismo à medida que empresas avançam em suas metas de descarbonização.
Esse movimento tem atraído volumes crescentes de capital para iniciativas ligadas à transição energética no país. Estimativas da Bloomberg apontam que o Brasil já recebeu cerca de US$ 37 bilhões em investimentos diretos nesse campo, sinalizando o interesse global em projetos energéticos no mercado brasileiro. Ainda assim, desafios relacionados ao ambiente regulatório e ao financiamento de projetos continuam sendo fatores relevantes a considerar. Nesse cenário, a combinação entre estratégia industrial, acesso a capital, gestão rigorosa de CAPEX e uma governança sólida torna-se decisiva.
Para avançar de forma consistente nessa agenda, é fundamental partir de um diagnóstico detalhado do consumo energético e dos principais pontos de desperdício, avaliar o custo das fontes atuais e alternativas, priorizar investimentos com retorno mais rápido combinados a iniciativas estruturais e consolidar um plano integrado com metas claras. Tudo isso deve ser sustentado por uma governança robusta, com indicadores de eficiência, acompanhamento contínuo e responsabilização direta pela execução.
A transição energética na indústria brasileira tende a se apoiar em três pilares principais: Decisões estratégicas sobre o mix energéticoganhos consistentes de eficiência operacional e execução disciplinada de projetos de capital. Nesse cenário, a descarbonização deixa de ser apenas uma pauta ambiental e passa a representar também uma alavanca concreta de competitividade para o setor industrial.
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Fonte ==> Folha SP