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Entenda a imagem de Deus apresentada pelos textos do Corão – 06/05/2026 – Darwin e Deus

Entenda a imagem de Deus apresentada pelos textos do Corão - 06/05/2026 - Darwin e Deus

Este é o penúltimo capítulo da nossa série Como Deus nasceu, sobre as origens dos três grandes monoteísmos, e o nosso tema, desta vez, é a imagem da divindade apresentada pelo Corão, o livro sagrado do Islã.

De acordo com a tradição muçulmana, os textos corânicos, hoje divididos em 114 capítulos ou “suwar” (singular “surah”; vamos aportuguesar para “sura”/”suras”), teriam sido revelados paulatinamente ao profeta Maomé nas cidades de Meca e Yathrib (Medina) entre os anos 610 e 632 d.C.

Existe uma discussão acadêmica gigantesca e complicadíssima sobre os detalhes da biografia de Maomé e da compilação do Corão. Principalmente no caso do profeta, os primeiros registros que chegaram até nós são muito tardios, datando de cerca de 150 anos após sua morte. Como o nosso foco é a evolução das ideias teológicas do Corão, esse debate fica para colunas futuras, mas, por ora, basta dizer que há inscrições citando suras que são bem mais próximas da época em que Maomé teria vivido, como as do Domo da Rocha em Jerusalém, datadas da década de 680.

Para quem não tem ligação pessoal com a tradição islâmica, é inevitável sair da leitura com a sensação de que a obra foi composta num modelo de debate e síntese com as tradições anteriores do judaísmo e do cristianismo.

Os capítulos corânicos citam com frequência narrativas e figuras do Antigo e Novo Testamento, de Adão a Jesus, passando por Abraão, Moisés, David e João Batista. No caso de Cristo, as cenas parecem até reelaborar detalhes presentes em Evangelhos apócrifos (não oficiais).

Essa recapitulação, porém, serve ao propósito de ressaltar a unicidade de Deus. Allah/Alá é, acima de tudo, aquele que jamais fez parte de uma Trindade e que não tem parceira nem filhos –embora seja servido por anjos, como Gabriel, responsável por transmitir as revelações divinas a Maomé. As figuras do passado judaico e cristão são, no máximo, seus profetas, e isso vale inclusive para Jesus.

Para o Corão, o Nazareno é o “filho de Maria” (e apenas dela) por ter sido concebido pelo poder de Allah, mas isso não significa que ele seja divino. Os inimigos do profeta Jesus tentam crucificá-lo, mas só parecem conseguir –Allah os iludiu e salvou seu enviado da morte.

O Deus corânico, descrito o tempo todo como misericordioso e paciente, envia diversas revelações aos seres humanos desde o início dos tempos, por meio da longa sucessão de profetas. Com o decorrer dos séculos, porém, as mensagens são esquecidas ou distorcidas, mecanismo que é usado para explicar as divergências teológicas que existem entre muçulmanos, judeus e cristãos.

Compassivo para com todos os que se arrependem e o buscam com sinceridade, Allah também é, no entanto, um juiz severo. Com efeito, a frase que resume a fé verdadeira em diversas passagens é “crer em Allah e no Último Dia”. O Islã é uma religião apocalíptica, como o cristianismo primitivo, no sentido de que o Juízo Final, com a recompensa para os justos no Paraíso e a punição perpétua para os maus no Inferno, é parte essencial de sua visão de mundo.

O critério usado por Allah para julgar os seres humanos é, de um lado, a solidariedade social –ajudar os órfãos, as viúvas, os pobres, os forasteiros–, e, de outro, a disposição para lutar contra os inimigos da fé quando ela é ameaçada, e ambas as coisas parecem ter peso semelhante.

No capítulo final da série, a seguir, examinamos o desenvolvimento de aspectos da doutrina islâmica e a divisão entre sunitas e xiitas. Até lá!



Fonte ==> Folha SP – TEC

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