Evangélicos podem ser protagonistas em mais uma eleição presidencial. Desta vez, para tirar a certeza de que Flávio Bolsonaro será o candidato da direita. A última coleta da Quaest, divulgada na semana passada, mostra o nome bolsonarista caindo nove pontos nesse segmento, de 61% para 52%.
Evangélicos representam um dos pilares eleitorais do bolsonarismo. Lideranças nacionais poderiam atuar para conter a sangria, mas continuam em silêncio —e têm motivos. Apostavam na dobradinha Tarcísio-Michelle e foram atropelados pela escolha de Flávio. Em seguida, a mentira sobre a relação com um ex-banqueiro que promovia orgias aumentou o constrangimento.
Flávio é visto por muitos como crente de fachada. Não se sabe ainda para onde foram os milhões pagos por Daniel Vorcaro para o filme “Dark Horse” e cresce a expectativa de que novas revelações contaminem quem pedir apoio a ele.
O escândalo do Banco Master também expôs uma denominação frequentada pelos Bolsonaros. Vorcaro tinha como braço direito o advogado Fabiano Zettel, seu cunhado e pastor da Igreja Batista da Lagoinha. Para complicar, igrejas são espaços em que informações correm pelo boca a boca, para evitar escândalo público. Nesse ambiente, já se multiplicam boatos sobre Flávio nas festas de Vorcaro.
Dos muitos motivos para a queda de Flávio entre evangélicos, a mentira sobre a relação com Vorcaro tem efeito simbólico mais poderoso. Pastores que eu ouvi notam o desencanto com o bolsonarismo se espalhando silenciosamente.
Por que, então, as lideranças não rompem com Flávio e buscam outro nome, como fez o Ministério Madureira da Assembleia de Deus ao declarar apoio a Caiado? Entendem que o movimento é inútil porque, neste momento, ele ainda aparece como provável representante da direita no segundo turno.
Vale perguntar, então, para onde esses votos estão indo. Os dois pré-candidatos que cresceram na pesquisa da Quaest entre evangélicos foram Lula e Renan Santos, que é presidente do MBL e fundador do partido Missão.
Lula continua muito rejeitado por esse segmento, mas o apoio ao petista subiu de 24% para 31%. Os pacotes do governo para setores empobrecidos chegam ao mesmo tempo em que lideranças como Silas Malafaia, conhecidas pelo policiamento contra a esquerda, se distanciam de Flávio.
Renan é o único que cresce entre as opções à direita. Num segundo turno hipotético com Lula, o apoio de entrevistados evangélicos a ele subiu de 40% para 43%. Zema perdeu dois pontos, indo para 48%, e Caiado ficou estável, em 49%.
Os avós paternos de Renan eram evangélicos, mas ele mantém distância desse campo. Religião e política só aparecem em suas declarações para atacar a Lagoinha como igreja de Vorcaro.
Muitos pastores ainda não anunciaram apoio a Flávio. Apesar da oportunidade, nenhum pré-candidato teve atitude semelhante à de Jair Bolsonaro: querer aparecer ao lado dos evangélicos e dar importância simbólica a esse grupo, mesmo sem ter adotado essa fé.
Pedi e recebereis, diz a Bíblia.
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Fonte ==> Folha SP