Inovação, inteligência artificial, algoritmos, mundo virtual são palavras bem conhecidas, mas que nem sempre transmitem aos usuários os impactos reais na vida de cada um. Na prática, tais ferramentas, hoje “trending topics” globais, resultam no desenvolvimento de medicamentos mais efetivos, em tratamentos com maior possibilidade de cura de doenças como câncer, aprimoramento profissional e em produtividade crescente. A agenda do futuro inclui aumento da qualidade e do tempo de vida, a partir do avanço na medicina com maior precisão de diagnóstico; entretenimento personalizado e interativo, como a possibilidade de escolher ângulos ao ver um jogo de futebol, disponível na Globo na transmissão da Copa do Mundo de 2026; e ampla interatividade entre aplicativos, como a parceria entre iFood e Uber.
A IA generativa mudou o processo de decisão e criação, mas uma coisa é certa: o ato criativo permanecerá atributo do ser humano. Tal consenso prevaleceu nos debates que reuniram especialistas no “Voices 2025”, evento de inovação realizado pelo ValentiaO Globo, Rádio Globo, CBN, TechTudo, Época Negócios e Pequenas Empresas & Grandes Negócios, no Rio de Janeiro. Uma das novidades que reitera esse princípio foi trazida por Raymundo Barros, CTO da Globo, e Leonora Bardini, diretora-executiva da TV Globo, no painel “TV do Futuro”, ao anteciparem detalhes sobre a chegada, em junho de 2026 (antes da Copa), da chamada “TV 3.0”, ou DVT+. Será possível ao espectador, por exemplo, receber na tela – enquanto assiste à novela – uma notificação de que começou a partida de futebol com seu time, em outro canal. A ideia é ampliar a interatividade, o que inclui a possibilidade de comprar produtos anunciados, receber alertas da defesa civil, participar de votações em programas como o “BBB”.
Os debates no “Voices 2025” também falaram sobre problemas e desafios do avanço tecnológico. Entre os mais graves estão o aumento de problemas mentais – ansiedade, depressão, automutilação e suicídios – entre crianças e adolescentes; da pedofilia; de violência contra mulher; de assédio moral; e de comportamento racista. Mais: em um ano eleitoral, como o próximo, há riscos de expansão de notícias falsas usando imagem e voz de qualquer pessoa criadas por IA, levando os mais crédulos a comprarem remédios supostamente anunciados pela apresentadora Fátima Bernardes, que citou esse exemplo durante um dos painéis, sem que ela sequer soubesse da existência de tal vídeo. A luta contra a desinformação é prioritária e urgente.
Não por outra razão, uma das mesas do evento discutiu o novo marco regulatório de IA no Brasil. A votação na Câmara do Projeto de Lei nº 2.338/2023 pode ocorrer ainda este ano. O painel reuniu Luciana Santos, ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), relator do projeto na Câmara, e o senador Eduardo Gomes (PL-TO), relator do projeto no Senado aprovado em 2025, com mediação do jornalista André Miranda, editor-executivo do jornal O Globo. A regulação e a governança da IA têm importância estratégica, segundo a ministra. “É preciso ter segurança jurídica e proteção”, disse. Eduardo Gomes ressaltou que a discussão na Câmara já produziu efeitos práticos, como o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), que define regras de proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais e que entrará em vigor em março de 2026.
“Mais de 50% do conteúdo do Facebook parece sopa de inteligência artificial. Você não pode confiar no que vê.” As duas frases foram ditas pelo criador da antiga rede social Orkut, que chegou a reunir 40 milhões de brasileiros, o engenheiro Orkut Büyükkökten, uma das principais atrações do “Voices”. Crítico do modelo atual das redes sociais, ele enfatizou que, hoje, elas estão longe da ideia original de promover conexões humanas, já que prevalece “raiva, ódio e negatividade”. Isso, porque as plataformas priorizam lucro, valendo-se de algoritmos para gerar engajamento contínuo, favorecendo conteúdos agressivos por serem mais lucrativos. Mas há um futuro melhor à vista. “A era leve da internet não desapareceu”, disse, informando que trabalha em uma nova rede social inspirada no Orkut original. Com a nova rede ele pretende “resgatar a leveza e a conexão genuína” do início da internet.
Um dos exemplos que referenda as críticas feitas pelo criador do Orkut foi dado por Patrícia Peck, advogada e especialista em direito digital, em outro painel. “O modelo de riqueza hoje está baseado em dados. Na internet da IA e dos algoritmos, a informação persegue o usuário. Se você falar perto do smartphone ele já te oferece um produto ou um serviço. O celular está me escutando. Será que ele está virando um agente de espionagem? Quais os valores dessa sociedade que a gente quer proteger? Vamos proteger dados, privacidade, vamos trazer cibersegurança. A IA precisa seguir essas regras”, disse, ao citar a necessidade de privacidade de dados.
A internet é o lugar mais perigoso onde (jovens) podem estar sozinhos”
-Vanessa Cavalieri
Vanessa Cavalieri, juíza da Vara de Infância e Juventude do Rio de Janeiro, enfatiza que as crianças e os adolescentes são as maiores vítimas das redes sociais por serem mais vulneráveis. “A internet é o lugar mais perigoso onde podem estar sozinhos. Se os pais não deixam seus filhos pequenos sozinhos na rua, não devem deixá-los sozinhos em redes sociais. A internet não é mais segura que a rua”, disse, enfatizando com os seguintes dados: “Os adolescentes brasileiros passam sete horas em redes sociais. O SUS, em 2024, atendeu mais criança e adolescente com quadro de ansiedade, depressão e ideação suicida do que adultos.”
A boa notícia é que os crimes deixam rastros que podem ser identificados. “A internet não é mais uma terra sem lei. Esperamos que a partir do ECA Digital haja efetiva responsabilização das plataformas”, disse Gabriela Lusquiños, promotora de Justiça da Infância e Juventude do Rio de Janeiro. Os temas levaram ao Museu de Arte do Rio (MAR), palco do “Voices”, centenas de millenials, nascidos entre 1981 e 1986 e jovens da geração Z, pós-1995. O evento teve patrocínio da Prefeitura do Rio e Secretaria Municipal de Educação, apoio da Zapt, patrocínio das trilhas por Claro Empresas e Insper e parceria da Play9.
Fonte ==> Exame