Um foguete da Blue Origin, empresa espacial de Jeff Bezos, aparentemente teve um lançamento perfeito no último domingo (19), com o propulsor descendo com sucesso em uma balsa no Atlântico.
Algumas horas depois, no entanto, soube-se que nem tudo havia saído bem. O foguete New Glenn falhou em sua tarefa principal: colocar um satélite comercial na órbita correta.
A AST SpaceMobile, de Midland, Texas, confirmou que seu satélite de comunicações BlueBird 7 estava condenado após ficar em uma órbita “baixa demais para sustentar operações”.
Este é um revés não apenas para a Blue Origin e para a AST SpaceMobile, mas possivelmente também para a Nasa. Embora a agência espacial não tenha tido nenhum envolvimento na missão de domingo, ela conta com a Blue Origin para apoiar o programa Artemis.
A Blue Origin é uma das duas empresas que a Nasa contratou para fornecer módulos de pouso que levarão astronautas da órbita lunar até a superfície do satélite. Como o módulo de pouso da Blue Origin será lançado em um foguete New Glenn, qualquer atraso com o foguete vai gerar incertezas adicionais em um cronograma ambicioso.
A Blue Origin iniciou uma investigação, com supervisão da Administração Federal de Aviação (FAA), para descobrir o que deu errado no domingo e como corrigir o problema. Até que isso seja concluído, o New Glenn não pode voltar a ser lançado, segundo a FAA.
“Pode levar três, quatro meses ou mais”, disse Todd Harrison, pesquisador sênior do American Enterprise Institute, um centro de estudos com sede em Washington. “Se demorar mais do que isso, será decepcionante e começará a impactar o programa Artemis.”
Durante o lançamento de domingo a partir da Estação da Força Espacial de Cabo Canaveral, na Flórida, a contagem regressiva transcorreu sem problemas até ser interrompida faltando menos de quatro minutos, por razões que a Blue Origin não explicou.
O problema foi declarado resolvido, a contagem regressiva foi retomada e o foguete decolou. Depois que o propulsor empurrou o foguete através da parte mais densa da atmosfera, ele se separou e seguiu em direção a uma plataforma flutuante chamada Jacklyn, em homenagem à mãe de Bezos.
O propulsor era o mesmo usado durante o lançamento anterior do New Glenn em novembro, embora todos os sete motores tivessem sido substituídos. O segundo estágio do foguete continuou em direção ao espaço com o satélite da AST SpaceMobile.
A Blue Origin encerrou sua transmissão ao vivo do lançamento logo após um dos apresentadores dizer que os motores do segundo estágio haviam sido desligados. Esse estágio deveria acionar novamente 70 minutos após o lançamento, por 68 segundos, para colocar o Bluebird 7, o satélite, em sua órbita final.
Durante essa segunda manobra, um dos dois motores “não produziu empuxo suficiente para alcançar nossa órbita-alvo”, disse Dave Limp, CEO da Blue Origin, em uma publicação na plataforma social X na tarde de segunda-feira (20).
Jonathan McDowell, astrofísico aposentado e especialista em detritos espaciais, disse que a Força Espacial dos Estados Unidos, que rastreia dezenas de milhares de objetos em órbita, informou que um objeto identificado como o satélite saiu de órbita na segunda-feira.
A Força Espacial não identificou o estágio superior do New Glenn, e alguns especialistas consideraram possível que tenha havido uma confusão entre o satélite e o estágio.
“O estágio superior é o grande mistério no momento”, disse McDowell.
O objetivo da Nasa de ter astronautas caminhando na Lua em dois anos exige que quase tudo dê certo daqui até lá, com pouca margem para contratempos como o que ocorreu no domingo.
A outra empresa que está construindo um módulo de pouso lunar para a Nasa é a SpaceX, de Elon Musk. Seu gigantesco veículo Starship também está atrasado, após várias falhas no ano passado. A SpaceX pretende lançar uma versão aprimorada dentro de um mês ou mais.
O próximo item na agenda lunar da Nasa é o lançamento da Artemis 3 no ano que vem. Embora a missão seja permanecer na órbita da Terra, ela envolve uma coreografia complexa de várias espaçonaves para permitir que os astronautas pratiquem procedimentos de acoplamento.
Os astronautas dentro da cápsula tripulada Orion —a espaçonave que completou com sucesso uma viagem ao redor da Lua durante a missão Artemis 2 neste mês— devem se encontrar com os módulos de pouso da SpaceX e da Blue Origin, que serão lançados separadamente.
Isso não apenas exigiria três lançamentos em um curto período de tempo, mas também uma coordenação precisa entre a Nasa, a SpaceX e a Blue Origin na operação de suas espaçonaves.
“Isso também será uma demonstração de se conseguimos ou não realizar esses cenários de múltiplos lançamentos nos quais estamos apostando todas as fichas”, afirmou Daniel Dumbacher, professor da Universidade Purdue e ex-funcionário da Nasa.
A Nasa ainda não nomeou os astronautas designados para a Artemis 3, e detalhes importantes ainda precisam ser definidos, incluindo a órbita.
Se o New Glenn permanecer em solo por meses, isso reduz as chances de a Blue Origin ter seu módulo de pouso Blue Moon Mark 2 pronto para a missão Artemis 3.
A falha do New Glenn também levanta dúvidas sobre quando a Blue Origin poderá lançar um módulo de pouso menor, chamado Mark 1. Ele deve ir à Lua neste ano para testar muitas das tecnologias que também serão usadas no Mark 2.
Se a Blue Origin atrasar, a Nasa pode decidir adiar a Artemis 3 ou conduzir a missão sem a Blue Origin.
Fonte ==> Folha SP – TEC