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Fósseis de 550 milhões de anos mostram origem de destros – 20/07/2026 – Ciência

Fóssil alongado com segmentos visíveis em relevo na superfície de uma rocha marrom avermelhada, mostrando detalhes da estrutura corporal fossilizada.

Você é destro? Aproximadamente 90% das pessoas são. Mas, aparentemente, a prevalência de destros não é nem de longe algo novo: um conjunto de fósseis do sul da Austrália revela que os destros têm levado vantagem há mais de meio bilhão de anos.

Uma equipe de pesquisadores analisou recentemente fósseis de Spriggina, um organismo menor que um polegar que se assemelhava a uma sanguessuga. Os cientistas ficaram surpresos ao descobrir que muitos desses fósseis estavam curvados, fornecendo evidências de que a Spriggina consistentemente preferia virar para a direita enquanto se movia.

Em um artigo publicado no último dia 9 na revista Scientific Reports, os cientistas propõem que a Spriggina apresenta a evidência mais antiga de “lateralidade” comportamental em animais, apesar de não possuir nada que se assemelhasse a um membro.

As descobertas revelam que a lateralidade é uma característica antiga entre formas de vida complexas. “Assim que surge algo que tem um lado esquerdo e um direito, como a Spriggina, começamos a ver evidências de preferência por um lado em relação ao outro”, disse Scott Evans, paleontólogo do Museu Americano de História Natural e autor principal do artigo.

A lateralidade está praticamente em toda parte. A dupla hélice do DNA gira para a direita, enquanto o spin de partículas como elétrons determina se elas são “destras” ou “canhotas”. Humanos e outros animais, como camundongos e pererecas, exibem lateralidade comportamental, ou a preferência por usar um lado do corpo ou membro em vez do outro. Muitos tipos de plantas também apresentam isso.

Fósseis fornecem pistas de que essas propensões comportamentais são antigas. A evidência mais antiga conhecida de lateralidade na árvore genealógica humana é um Homo habilis destro que cutucava os dentes, muito provavelmente com uma ferramenta de pedra, há cerca de 1,8 milhão de anos.

Mas a lateralidade comportamental evoluiu muito antes das próprias mãos. Cicatrizes nos flancos direitos de fósseis de trilobitas revelam que esses antigos artrópodes geralmente desviavam para a direita ao tentar escapar de predadores.

Essas origens antigas ilustram os claros benefícios de escolher um lado, segundo Loren Babcock, paleontólogo da Universidade Estadual de Ohio (EUA) que não participou do estudo. Se um animal está fugindo de um predador, por exemplo, “economiza-se tempo se você não precisa tomar uma decisão sobre qual pé colocar primeiro ou para qual lado virar.”

Os animais podem ter se beneficiado da lateralidade desde o Ediacarano, um período geológico que precedeu a explosão cambriana. O Parque Nacional Nilpena Ediacara, no sul da Austrália, preserva um instantâneo desse capítulo fundamental na história da vida. Há mais de 550 milhões de anos, essa área era um fundo marinho coberto por tapetes microbianos que abrigava uma variedade alienígena de frondes carnudas, discos ondulados e tubos esponjosos.

A Spriggina habitava esse ecossistema embrionário. O estranho organismo, que é o emblema fóssil oficial do sul da Austrália, tinha um corpo alongado de segmentos simétricos que culminava em uma porção semelhante a uma cabeça, parecida com um elmo medieval.

Por décadas, a Spriggina era conhecida apenas por um punhado de espécimes fósseis. Mas paleontólogos escavaram recentemente lajes inteiras de Nilpena repletas de criaturas que foram rapidamente soterradas durante tempestades antigas.

Evans e seus colegas examinaram várias lajes que, coletivamente, contêm mais de cem espécimes de Spriggina. Muitos dos fósseis, que estão preservados como impressões que espelham a posição final do animal vivo, estavam dobrados ou curvados como se o organismo estivesse deslizando pela rocha.

Para entender esses movimentos, os pesquisadores fotografaram os fósseis e fizeram varreduras 3D, o que lhes permitiu medir o quanto os espécimes de Spriggina desviavam de uma linha reta. O trabalho revelou que a Spriggina provavelmente era mais ágil do que se pensava anteriormente. A equipe disse acreditar que elas contorciam seus corpos como planárias ou nudibrânquios vivos.

A equipe também descobriu que a Spriggina favorecia seu lado direito. Aproximadamente o dobro de fósseis representava animais curvando-se para a direita em comparação com aqueles curvando-se para a esquerda. Evans alerta que os fósseis não fornecem evidências do motivo pelo qual a Spriggina preferia virar para a direita em vez da esquerda.

Como os animais habitavam o fundo do mar, é possível que a posição de seus corpos tenha sido influenciada por correntes. No entanto, Lidya Tarhan, paleontóloga da Universidade Yale que não participou do estudo, afirmou que isso é improvável. Se correntes tivessem varrido esses espécimes, segundo Tarhan, eles provavelmente estariam curvados da mesma maneira, em vez de dobrados em várias posições.

Embora a paleontóloga não tenha ficado surpresa com o fato de a Spriggina poder se mover, ela disse que sua lateralidade revelou “capacidades sensoriais e motoras relativamente avançadas”.

A lateralidade da Spriggina também a conecta a organismos muito posteriores, incluindo os humanos. “Especializar um lado do corpo é uma parte realmente benéfica desse plano corporal”, disse Evans. “A Spriggina tem uma frente e uma traseira, um lado esquerdo e um direito —o mesmo plano corporal que todos nós temos.”



Fonte ==> Folha SP – TEC

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