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Freios, contrapesos e estelionato eleitoral – 24/10/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

Bandeira do Brasil com fundo verde, losango amarelo central e círculo azul no meio. Dentro do círculo azul, há um símbolo branco de dois sinais de verificação sobrepostos.

“Lamento dizer que a direção editorial desta Folha terá sido corresponsável pela volta da ditadura caso Flávio se eleja. O jornal atuou de maneira incansavelmente parcial durante toda a campanha. Triste demais.”

“Com a ajuda de vocês, jornalistas, Lula vai ganhar, e esse país vai virar um caos. Confundiram trabalho com posição pessoal. Saíram do salto alto e abraçaram a campanha do PT. Obrigado pela convivência. Bye, bye.”

No último mês, aumentaram a quantidade e a gravidade das mensagens que atribuem à Folha parte substantiva da responsabilidade pelos resultados eleitorais —mesmo com evidências de que o jogo eleitoral mudou com redes sociais, IA e o peso de empresas como a Meta.

As queixas e observações, no entanto, vêm em proporções diferentes. É muito maior a quantidade de manifestações temerosas de uma eventual vitória do filho de Jair Bolsonaro, condenado por tentativa de golpe. Mais raras são as que acusam o jornal de viés ou suposta campanha pró-Lula.

Leitores que apoiam Lula tendem a ser mais vocais mesmo fora das eleições. Resta saber se são apenas mais dados à comunicação ou se os partidários do bolsonarismo teriam menos motivos para queixas.

“Acho curioso que a postura seja se posicionar ‘em caso de ruptura iminente’. Qual o limite da iminência? O jornal espera que o candidato desista de anistiar condenados por tentativa de golpe? A alusão a mudança constitucional é análoga a declarações do mandatário anterior que muitos consideravam ‘bravata’”, diz Danilo França. Ele criticava a resposta do jornal, que, questionado no primeiro turno sobre o motivo de não ter adotado o slogan “pela democracia” neste ano, afirmou não haver necessidade num cenário “em que há um presidente comprometido com a democracia e o processo eleitoral ocorre dentro da normalidade”.

Se sobrou confiança nos freios e contrapesos, faltou examinar melhor o que apenas muito recentemente passou a ser visto como potencial de “estelionato eleitoral” bilateral. Enquanto os debates na TV foram criticados por falta de checagem em tempo real, o jornal às vezes ainda fica devendo na checagem posterior.

Alguns leitores que ouviram a proposta de congelamento de dívidas feita por Flávio Bolsonaro no debate da Band ficaram confusos. Um questionou a falta de destaque para isso. Outra leitora preferiu voltar a uma reportagem da Folha de 7 de outubro, “Flávio Bolsonaro propõe congelar dívidas das famílias, aos moldes de Desenrola de Lula”.

Para ela, era um erro o texto “apenas narrar factualmente a proposta” do candidato e equipará-lo ao Desenrola, “com escala muito menor do que a proposta do Bolsonaro, que traria consequências econômicas muito distintas para o país”.

“Como a matéria registra uma proposta dessas sem ouvir um economista para falar sobre viabilidade? Sobre consequências? Se o Flávio Bolsonaro tivesse prometido ressuscitar Jesus, a Folha publicaria sem questionar?”, pergunta Fernanda Reis.

A indisposição crítica voltou a atacar na proposta de ressurreição não de Jesus, mas do Perse. O título da Folha qualificara o programa como “criticado por desvios”, mas as preocupações eram mais graves do que isso. A colunista Adriana Fernandes lembrou: “Perse é o pior benefício tributário de todos os tempos”, “maior programa de lavagem de dinheiro e sonegação do país” e com suspeitas de benefícios à facção criminosa PCC.

Não é que Lula não erre nem exagere nas propostas. Mas, quando surgem, esses erros e exageros são detectados com mais facilidade, até porque as reações da entidade “o mercado” costumam atribuir-lhes sem demora seus selos de classificação.

No caso de Flávio Bolsonaro, o fato de aparentemente haver dois discursos diferentes, um para o andar de cima e outro para o de baixo, ficou mais claro após o primeiro turno. Mas a fé da Faria Lima no candidato do PL permaneceu em segundo plano, quando deveria ter sido objeto de uma investigação de milagres digna do Vaticano.

Quando a Folha revelou que “Flávio considera mudar correção da Previdência, da saúde e da educação para obter até R$ 250 bi”, a campanha saiu a galope para negar a informação e conter danos. Faltava contar o motivo do desespero, se o corte era consenso no mercado e razão do apoio do setor financeiro ao candidato. E o título ainda optava por “mudar correção” em vez de deixar claro que isso significaria reduzir o aumento, frear o reajuste etc.

O jornal mostrou, em seguida, como as “contradições do discurso econômico de Flávio expõem dúvidas no ajuste fiscal prometido pelo candidato”. Pelo ânimo do mercado, porém, a dúvida parecia não ser tanto no ajuste.

Na última semana, um texto todo com declarações em off afirmava que o “mercado segue apostando em Flávio mesmo com incômodo por promessas de campanha”. Lá pelas tantas, informava que “alguns gestores indicaram não acreditar que, de fato, ela [medida de congelamento de dívidas] será implementada”. Ah, bom. Faltou só o destaque.

“Aquele que eventualmente ganha a disputa tem de dar conta das dívidas contraídas com empresários e políticos que perderam eleições, mas os apoiaram, e para isso capturam e aparelham o estado”, resume de forma pragmática o leitor Eduardo A. Hofstätter. “Não entendo por que se ‘mete o pau’ neste ou naquele ministro do Supremo e escreve-se tão pouco sobre mudar as regras de nomeação tanto do Judiciário quanto das estatais bem como a duração de cargo”, diz. “Tenho sincera esperança de que esta Folha melhore após as eleições!”



Fonte ==> Folha SP

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