A seca e o frio que periodicamente afetavam os povos das estepes da Ásia nos primeiros séculos da Era Cristã podem ter funcionado como um sistema de “exportação de bárbaros”, lançando ondas migratórias desses grupos contra o Império Romano e o Império Chinês, por exemplo.
A hipótese vem de um novo estudo, coordenado por pesquisadores chineses e que saiu na última segunda-feira (9) na revista especializada PNAS, que usou os anéis de crescimento que se formam dentro do tronco das árvores para estimar os sucessivos vaivéns climáticos na Mongólia e em regiões vizinhas desde mais ou menos o ano 200 a.C.
Hoje, essa área, que também engloba o noroeste da China e as fronteiras do país com a Rússia e o Cazaquistão, é um canto relativamente remoto do território asiático. Mas diversos grandes impérios e generais temíveis da Antiguidade e da Idade Média tiveram sua origem ali, graças à presença de tribos nômades de cavaleiros com grande capacidade de inovação em tecnologia e organização militar.
Na lista de conquistadores vindos da estepe asiática, o mais famoso é Gêngis Khan (1162-1227), fundador do Império Mongol, um Estado que chegou a se estender da Europa Oriental até o oceano Pacífico. Mas, antes e depois dele, diversas outras ondas de arqueiros a cavalo avançaram para o Ocidente, para a Índia ou para a China (no caso do próprio Gêngis Khan e de seus herdeiros, tudo isso quase ao mesmo tempo).
A questão, porém, é saber quais os mecanismos que impulsionavam os pastores altamente móveis dessa região a atravessar milhares de quilômetros de estepe em busca de novas pastagens e conquistas militares.
Mudanças políticas e sociais, como a centralização do mando nas mãos de poucos chefes ou de uma única dinastia, bem como fatores externos –o enfraquecimento de impérios vizinhos ou longínquos, digamos – devem ter influenciado essas migrações de longa distância. Mas deixar a terra natal também envolvia grandes riscos e custos, o que leva muitos pesquisadores a imaginar que, além dos fatores de “atração” (as vantagens de migrar), havia ainda os fatores de “repulsão” (as desvantagens de permanecer na região de origem).
No caso dos fatores de repulsão, é preciso levar em conta a relativa fragilidade ecológica das estepes asiáticas. Em períodos climaticamente favoráveis, mais quentes e chuvosos, o capim luxuriante que cresce na região se transforma num oceano verde, alimento perfeito para vastas manadas de cavalos, ovelhas e cabras, entre outros animais domésticos de grande porte. Alimentando-se da carne e do leite desses rebanhos, os nômades também podiam aumentar consideravelmente sua população, transitando entre pastagens de verão (em áreas mais elevadas e frescas) e inverno (nos vales).
Em fases climáticas mais inclementes, porém, os pastos podiam rarear com o aumento do frio nas pastagens de verão e da seca nas de inverno. A equipe liderada por Feng Chen, da Universidade de Yunnan, e Fahu Chen, da Universidade da Academia Chinesa de Ciências, investigou isso por meio dos anéis de árvores obtidos em três regiões-chave para as estepes. As amostras vêm das montanhas Altai e Sayan (perto da fronteira entre províncias russas, chinesas, mongóis e cazaques), do platô da Mongólia e da bacia de Qaidam, no noroeste da China.
As árvores –lariços, pinheiros e juníperos, todas do grupo das coníferas– são espécies de vida longa e, por isso, o interior de seus troncos funciona como um registro de séculos de história nas estepes. A espessura dos anéis formados na madeira interna do tronco em ciclos anuais ajuda a dizer se aquele ano foi de crescimento fácil ou difícil para a árvore (e as demais plantas). E é possível datar diretamente a matéria orgânica do tronco, criando praticamente um calendário climático do lugar onde a árvore cresceu.
Com base nisso, os pesquisadores identificaram três grandes fases em que as estepes orientais sofreram quedas brutais de produtividade primária líquida, ou seja, da quantidade de matéria viva produzida pelos ambientes naturais a partir do crescimento das plantas. Todas elas equivalem a episódios de seca e resfriamento do tipo que só ocorrem uma vez a cada século ou com frequência ainda menor que isso.
A primeira, por volta do ano 100 d.C., parece coincidir com a dispersão dos nômades do antigo Império Xiongnu, um rival da China que inicia uma migração para regiões mais ocidentais da Europa. É possível que o nome “Xiongnu” esteja na origem da denominação étnica dos hunos, confederação de tribos nômades que apareceu às portas da Europa por volta do ano 400 d.C.
E é justamente por volta dessa época, a partir da década de 360 d.C., que a equipe registrou um novo período de seca e frio devastadores nas estepes. É possível, portanto, que que novos grupos das estepes tenham ido para o oeste e se juntado aos descendentes dos Xiongnu originais para formar as tribos de hunos que chegaram muito perto de destruir o Império Romano no século 5º.
Por fim, os pesquisadores chineses e seus colegas identificaram um último período de clima desfavorável nas estepes entre as décadas de 470 e 560. Esse pode ter sido o impulso que fez com que chegasse à Europa o povo dos ávaros, que se fixaram na bacia do rio Danúbio e ameaçaram tanto a atual Alemanha quanto o Império Bizantino, sediado em Constantinopla (hoje Istambul, na Turquia).
Uma coisa é indiscutível: dados de DNA indicam que tanto os hunos quanto os ávaros tinham herança parcialmente asiática, derivada de grupos de origem mongólica, embora tenham se miscigenado com outros povos em suas jornadas. Resta saber se a tese do “empurrão” climático para as migrações vai se sustentar.
Fonte ==> Folha SP – TEC