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Galápagos: leões-marinhos ainda mamam na maturidade – 25/01/2026 – Ciência

Dois leões-marinhos repousam lado a lado sobre uma superfície rochosa cinza. Ambos têm etiquetas amarelas presas às nadadeiras traseiras.

Para a maioria dos mamíferos, crescer significa abandonar o leite materno. Mas esse não é o caso dos leões-marinhos de Galápagos (Zalophus wollebaeki).

Um estudo de longa duração documentou um número significativo de espécimes que vivem no arquipélago no oceano Pacífico e continuaram a mamar em suas mães por anos após atingirem a maturidade sexual. Alguns alcançaram idades comparáveis às de adolescentes humanos, com alguns mamando até o equivalente à meia-idade e além.

Um animal foi observado mamando aos 16 anos, o que, considerando a expectativa de vida dos leões-marinhos, seria equivalente a pessoas no início dos 60 anos ainda sendo amamentadas por suas mães.

Nenhum outro animal demonstrou amamentar filhotes tão tardiamente em sua vida reprodutiva. “É absolutamente extraordinário”, disse o especialista em mamíferos marinhos Patrick Pomeroy, da Universidade de St. Andrews (Escócia), que não esteve envolvido na pesquisa. “Vai contra tudo o que se sabe.”

“O fato de isso estar acontecendo em uma espécie que produz leite tão custoso e rico em lipídios torna isso ainda mais notável”, acrescentou a antropóloga aposentada Sarah Blaffer Hrdy, da Universidade da Califórnia, em Davis (Estados Unidos).

A lógica darwiniana sustenta que as mães deveriam cessar a custosa produção de leite para seus filhotes quando seus descendentes podem se alimentar sozinhos e se reproduzir. No entanto, entre os Zalophus wollebaeki muitas mães continuam amamentando filhotes mais velhos mesmo enquanto criam os mais novos.

Então por que a seleção natural permitiu que esses animais continuassem voltando às mães em busca de alimento? “É muito difícil para nós compreendermos”, afirmou o ecologista comportamental Oliver Krüger, da Universidade de Bielefeld (Alemanha), um dos líderes do novo estudo.

Em casos raros, pesquisadores até observaram trens de amamentação multigeracionais, com um filhote preso à sua mãe, que por sua vez ainda está mamando de sua própria mãe. Em outras ocasiões, machos foram vistos alternando da amamentação para o cortejo, mudando de uma alimentação tranquila no peito da mãe para uma postura agressiva diante de uma potencial parceira.

“É um enigma”, disse Krüger. Ele e seus colegas publicaram o achado em dezembro no periódico The American Naturalist.

Krüger lidera o Projeto Leão-Marinho de Galápagos, que, desde 2003, monitora de perto uma única população desses espécimes, ameaçados de extinção. Essa colônia vive no pequeno ilhéu Caamaño, junto com iguanas marinhas, patolas-de-pés-azuis e outros animais selvagens que tornaram as ilhas famosas.

Ao longo dos anos, a equipe ocasionalmente observou leões-marinhos adultos continuando a amamentar. Mas foi preciso que uma estudante de pós-graduação, Alexandra Childs, se juntasse ao laboratório de Krüger e começasse a examinar a prática com seriedade. Ela analisou minuciosamente duas décadas de registros de campo e começou a contabilizar cada caso de amamentação prolongada que conseguia encontrar.

A maioria dos leões-marinhos havia desmamado até o terceiro aniversário, por volta da idade da puberdade, e estava se alimentando independentemente, principalmente de peixes e lulas. Mas 11% desses animais continuavam retornando às suas mães para se alimentar. E, entre esses leões-marinhos com amamentação tardia, 1 em cada 5 continuava bem além do ponto de maturidade sexual e atividade reprodutiva.

Os pesquisadores chamaram esses animais excepcionalmente dependentes das mães de “supermamadores”.

O comportamento não mostrou nenhuma preferência clara por filhos ou filhas, descobriram os pesquisadores, contrariando as expectativas de que as mães pudessem alimentar preferencialmente os machos maiores em detrimento de suas crias fêmeas menores.

O único padrão consistente que emergiu foi ambiental. Em anos de escassez, a generosidade pode ser muito custosa. Análises preliminares da mesma equipe sugerem que ter um “supermamador” na família pode aumentar as chances de que irmãos mais novos, ainda totalmente dependentes do leite materno, possam sucumbir a uma morte prematura.

Mesmo assim, os cientistas ainda não sabem quanta quantidade de leite os filhotes mais velhos estão realmente recebendo, ou quão calórico ele é. É possível que as visitas prolongadas à teta forneçam apenas um modesto alimento e que a amamentação prolongada principalmente reforce laços que persistem até a idade adulta.

Essa explicação social se encaixa com outras peculiaridades que diferenciam os leões-marinhos de Galápagos, segundo o ecologista Paolo Piedrahita, da Escola Politécnica Superior da Costa em Guayaquil, Equador. Isso inclui seu hábito incomum, raro entre mamíferos marinhos, de caçar cooperativamente conduzindo cardumes de peixes para águas rasas.

“Em Galápagos, tudo está de cabeça para baixo”, disse Piedrahita, coautor do estudo. “O que você aprende nos livros didáticos não é a regra.”



Fonte ==> Folha SP – TEC

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