Nesse exato momento, bilhões de semicondutores estão em ação para garantir que você possa trabalhar no seu notebooksolicitar delivery de comida pelo seu smartphone, se deslocar pelo seu veículo e até mesmo se manter conectado à internet por meio dos satélites.
Pense na sua vida e nas tecnologias e negócios do futuro, e lá estarão os chips. Dos celulares aos carros autônomos, sistemas militares de defesa e recursos para transição energética, o semicondutor é uma das principais engrenagens da economia mundial.
Até 2030, a expectativa de diferentes empresas do setor e consultorias, como Deloitte e McKinsey&Company, é que esse mercado alcance a marca de US$ 1 trilhão.
Ós números de 2025 ainda estão sendo fechados, mas a projeção é de uma alta de 14%, o que corresponderá a um faturamento de US$ 717 bilhões. O índice é um pouco abaixo do estimado pela World Semiconductor Trade Statistics (WSTS), que projeta expansão de 15,4%.
Diagramação/JC
Aqui, um detalhe nada trivial: o desenvolvimento de infraestrutura de Inteligência Artificial e o aumento de mais de 73% nas vendas de circuitos de memória puxaram essa alta. Ou seja, esse cenário deverá exponencializar ainda mais com o crescimento desta tecnologia. Até 2030, a IA sozinha deverá contribuir com mais de US$ 15 trilhões para a economia global.
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“Ó semicondutor é o quarto produto mais comercializado do mundo: vem atrás do petróleo bruto, do petróleo refinado e dos automóveis. Mas esses três não andam sem ele”, contextualiza o engenheiro professor de Gestão do Conhecimento e Inovação na PUCRS Adão Villaverdee um estudioso desse tema.
Diante dos números e da dependência de todas as indústrias dos semicondutoresfica fácil entender porque há uma corrida entre as potências globais para dominar, mesmo que uma fatia, desse mercado, certo?
E busca pela independência em etapas decisivas da produçãopassando pelas terras raras e mirando no potencial de demanda que a IA trará para esse mercado, há muito ainda a ser definido, e cada movimento conta.
Os Estados Unidos sempre foram dominantes no projeto e fabricação de chipsaplicando essa tecnologia a diversos sistemas, como os militares. Passadas algumas décadas, a indústria de semicondutores norte-americana continua sendo a líder, respondendo por pouco mais de 50% da receita global de chips, além de liderar as áreas de design e propriedade intelectual.
Mas, à medida que concorrentes de todo o mundo buscaram desafiar essa liderança, a participação dos EUA na capacidade global de fabricação de chips diminuiu drasticamente. Passou de 37% em 1990 para apenas 10% a partir de 2022, segundo relatório da Associação da Indústria de Semicondutores (SIA).
Apesar da maior parte das fabless (operações que projetam chips e terceirizam a fabricação) estar nos Estados Unidos, a A fabricação de folhas é dominada pelo Sudeste Asiático. Esta é a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC), a maior fabricante do mundo. A empresa de Taiwan detém cerca de 63% da manufatura do setor.
Conflito EUA x China
Nos últimos meses, disputa pela fabricação de semicondutores se acirrou e ganhou contornos de disputa tecnológica entre Estados Unidos e China. Enquanto as tensões políticas avançam (as tarifas impostas pelos americanos são um exemplo disso), a estratégia é se proteger para tentar depender o mínimo possível em um mercado tão estratégico para o futuro.
“Hoje, os países trabalham para expandir seus mercados por meio de incentivos governamentais competitivos e altos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. Há uma pressão crescente para que os países repatriem a produção de chips, fortalecendo suas cadeias de suprimentos para criar internamente um produto líder de mercado”, analisa em um artigo Lily Bermudez, Técnica de Dados de Pesquisa no Programa de Tecnologia Avançada da Universidade Duke, nos Estados Unidos.
Dentro dessa estratégia, o governo americano anunciou em agosto de 2025 uma tarifa de 100% sobre chips importados. A medida visa ainda isentar empresas que se comprometem a fabricar no território americano.
É parte do esforço dos EUA para produzir globalmenteapesar de também dependerem de uma cadeia de suprimentos de máquinas e insumos, que é muito espalhada.
TSMC e Nvidia anunciam chip produzido em solo americano
A americana Nvidia e empresa taiwanesa celebraram o primeiro wafer Nvidia Blackwell produzido em solo americano, representando que Blackwell atingiu a produção em massa Nvidia/Divulgação/JC
Em março de 2025, a TSMC anunciou um investimento de US$ 165 bilhões em instalações nos Estados Unidos. O projeto prevê três fábricas, duas unidades de embalagens avançadas e um centro de pesquisa e desenvolvimento. “Trata-se do maior investimento estrangeiro direto da história dos EUA”, destaca o comunicado da TSMC.
UM primeira vitória concreta, resultado dessa iniciativa, já é uma realidade: a americana Nvidia e empresa taiwanesa celebraram o primeiro wafer Nvidia Blackwell produzido em solo americanorepresentando que Blackwell atingiu a produção em massa. As duas empresas estão trabalhando juntas para construir a infraestrutura que alimenta as fábricas de IA do mundo, direto dos Estados Unidos.
“Este é um momento histórico. É a primeira vez na história recente dos Estados Unidos que o chip mais importante está sendo fabricado pela fábrica mais avançada, a TSMC, aqui nos Estados Unidos”, disse o fundador e CEO da Nvidia, Jensen Huangem visita à fábrica de semicondutores da TSMC em Phoenix.
Ó que americanos estão tentando é que esse ecossistema global os apoie mais do que a China. “Eles querem que os parceiros que eles, de fato, ajudaram a fortalecer nesses 40 anos, retribuam agora”, observe o CEO da Tellescom Semicondutores, Ronaldo Aloise Júniorcom mais de 30 anos nesse mercado e passagens por empresas como Intel, HP e Dell.
Esse é apenas um exemplo do rearranjo dessa cadeia. Nos últimos tempos, empresas migraram fábricas ou abriram novas plantas para aproveitar oportunidades comerciais ou financeiras. Mas, a verdade é que esse cenário não é mais determinado apenas pelo evidente potencial de negócios na área de semicondutores. No contexto geopolítico, a disputa entre países envolve soberania tecnológica, busca por autossuficiência e redução de dependência externa. É preciso dominar esse mercado de futuro para não ser dominado.
“Ó domínio de semicondutores se transformou não só numa atividade econômica ou tecnológica, mas numa atividade política”, define o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Semicondutores (Abisemi), Rogério Nunes.
Fonte ==> Folha SP