Foi um dos maiores matemáticos do século 20 e, provavelmente, o mais complexo. Não é exagero dizer que o seu trabalho refundou diversos domínios da matemática, em bases muito mais abrangentes, além de ter liderado a criação da importante área da geometria algébrica. Laureado em 1966 com a medalha Fields, prêmio mais importante da matemática, quatro anos depois abandonou sua posição no renomado Instituto de Altos Estudos Científicos (IHES) de Paris, em protesto contra o fato de o Instituto receber financiamento militar. A essa altura seu gosto pela matemática já estava começando a ser substituído pela militância em temas da política, ética e religião que o levaria a abandonar a comunidade científica.
Alexander Grothendieck nasceu na Alemanha em 1928, filho de anarquistas. Seu pai tinha raízes judaicas, e o casal acabou fugindo do nazismo para Paris em 1933. Alexander ficou em Berlim a cargo de um conhecido e só se reuniria a sua mãe em 1939 (o pai foi capturado pelo regime de Vichy, entregue aos alemães e internado em Auschwitz, onde foi assassinado em 1942). Depois de passar os anos da guerra, sobretudo, em campos de concentração para “estrangeiros indesejáveis”, o jovem entrou no sistema educacional francês, onde descobriu o gosto pela matemática.
Em 1950, ingressou na universidade de Nancy, onde escreveu sua tese sob a orientação de Jean Dieudonnée e Laurent Schwarz (este último distinguido com a medalha Fields nesse mesmo ano). A essa altura, muito longe de lá, a Universidade de São Paulo estava executando uma política inteligente e muito consistente de atração de alguns dos melhores cientistas europeus. Terminado o doutorado, em 1953, Grothendieck aceitou o convite da USP e viajou para o Brasil. Para isso precisou de um passaporte especial: tendo renunciado definitivamente à cidadania alemã em 1945, ele viveu como apátrida até 1971, quando finalmente aceitou se tornar francês.
Ficou até o final de 1954 na USP, onde realizou importante trabalho sobre a teoria dos espaços vetoriais topológicos. É desse período no Brasil também a sua aproximação de Leopoldo Nachbin, um dos fundadores do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Rio de Janeiro, e liderança pioneira da nossa matemática.
Em uma das minhas visitas ao Instituto Mittag-Leffler, em Estocolmo, encontrei na biblioteca uma monografia dele. No prefácio, Grothendieck explica que se trata de uma versão muito preliminar de obra muito mais bem acabada sobre a teoria dos espaços vetoriais topológicos “que estou escrevendo com Leopoldo Nachbin”. Infelizmente, tanto quanto sei, essa obra não chegou a existir.
Em seguida se mudou para o Kansas, nos Estados Unidos. Em 1957 foi convidado a visitar a Universidade Harvard, mas o convite foi retirado quando ele se recusou a assinar uma declaração de que não tentaria derrubar o governo dos Estados Unidos. No ano seguinte voltou a Paris, onde se tornou um dos primeiros professores do recém-criado IHES. Seu trabalho matemático mais espetacular é desse período que passou lá.
Embora tenha continuado ativo na pesquisa após sua saída do IHES, temas religiosos e místicos foram atraindo cada vez a sua atenção. Em 1988 eu já era estudante de doutorado no Impa e lembro bem da comoção na comunidade matemática quando Grothendieck recusou o prestigioso prêmio Crafoord da Real Academia de Ciências da Suécia. Em carta aberta à comunidade internacional, declarou que matemáticos estabelecidos como ele não precisavam de mais dinheiro e atacou o que chamava “o declínio dos padrões éticos da comunidade científica”.
No início dos anos 1990, mudou-se para um pequeno povoado na região francesa dos Pirenéus, onde viveu em reclusão até falecer, em 2014.
Fonte ==> Folha SP – TEC