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Guerra e paz são inferno para pobres – 05/05/2026 – Rui Tavares

Homem de cabelos grisalhos veste terno escuro, camisa branca e gravata amarela, falando para dois microfones com protetores de vento, apontados para ele contra céu claro.

Conta-se que, quando Lenin enviou Trótski a Brest-Litovsk para negociar uma paz com o Império Alemão, as condições impostas pelos emissários do kaiser eram tão duras que era impossível aceitá-las, mas voltar para casa sem a paz prometida era inconcebível.

Trótski tentava fugir ao dilema, e os alemães perguntavam-lhe sempre: “Afinal o que é que vocês querem, paz ou guerra?”. Trótski teria respondido: “Nem guerra nem paz”.

A resposta lembra o que se passa agora entre Donald Trump e Irã. Não temos guerra ativa; também não temos paz. A situação tanto pode degenerar quanto ficar congelada durante semanas ou meses, dependendo da capacidade de sofrimento de cada lado.

Em princípio, o Irã leva vantagem nesse quesito. Trump tem um povo que detesta pagar US$ 4,50 por galão de gasolina e há eleições de meio de mandato em novembro.

Mas mesmo que a guerra acabasse amanhã, a normalidade demoraria meses a ser reposta nos fornecimentos de combustíveis, e já não haveria tempo, neste ano, para repor os fornecimentos de fertilizantes.

Cerca de um terço de todo o comércio marítimo mundial de fertilizantes passa pelo estreito de Hormuz. O que podia ser plantado já foi decidido nestas condições de escassez. Sem falar nos compostos de enxofre, indispensáveis tanto à transformação do fosfato em fertilizante absorvível quanto à indústria de semicondutores que sustenta o setor hoje em maior pujança econômica: o da inteligência artificial.

Isto não afeta toda a gente da mesma forma. O mundo rico vive numa situação em que, pagando mais ou menos pela comida, não se passa fome.

No resto do mundo, e particularmente em regiões como o Chifre de África, vive-se como viviam os nossos antepassados. Um mau ano agrícola significa primeiro consumir as provisões do inverno, depois pular refeições, depois abater os animais que já não se conseguem alimentar e, depois, pegar a família e fugir à fome antes de morrer por ela. Essa pode ser, daqui a uns meses, a situação na Somália.

E é aqui que o problema bate à porta da Europa, que ficará na linha da frente do acolhimento de quem fugir. A mesma Europa que tem hoje uma agenda anti-imigrante; quando há uns anos a União Europeia pagava aos países europeus para receberem refugiados, estes agora pagam ao bloco para não receberem.

E são os mesmos governos que, por outro lado, decidiram cortar ajuda ao desenvolvimento. Aliás aqui também com o exemplo pioneiro dos EUA, que destruíram por dentro a Usaid apesar de saberem que esta agência de cooperação fornecia comida a países onde esse alimento faz a diferença entre vida e morte.

Olhamos para uma humanidade equipada com inteligência artificial, com tudo o que seria preciso para resolver um problema que é logístico e político, e vemos líderes que não só não fazem nada para o resolver como ainda lhe acrescentam a guerra. Só falta a peste para um retorno à Idade Média.

O mais deprimente nesta situação infernal é que não há um único elemento nela que fosse inevitável. Tudo são escolhas políticas. Nos nossos tempos, parece que um excesso de inteligência artificial nos corresponde a um excesso igual de estupidez natural.



Fonte ==> Folha SP

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