Um sistema circulatório oculto pulsa abaixo da superfície. Ali, incrustadas, estão densas redes de microrganismos conhecidos como fungos micorrízicos arbusculares. Eles se fixam nas raízes das plantas, enviando filamentos longos e finos através do solo. Transportam água e nutrientes para as plantas e removem carbono, ajudando a manter vastas quantidades dele fora da atmosfera.
Colocados ponta a ponta, esses filamentos se estenderiam por 109 quatrilhões de quilômetros —cerca de 730 milhões de vezes a distância entre a Terra e o Sol, relataram cientistas em artigo publicado no último dia 11 na revista Science.
Coletivamente, os filamentos contêm em torno de 300 megatoneladas de carbono, ou de 4 a 6 vezes mais carbono do que o contido por todos os seres humanos do planeta, de acordo com o estudo.
A equipe internacional que conduziu a pesquisa usou uma combinação de técnicas avançadas, incluindo aprendizado de máquina e um robô de imagem de alta resolução, para medir, prever e mapear o tamanho dessas redes fúngicas em ecossistemas ao redor do mundo.
O estudo revelou redes fúngicas particularmente densas sob as pastagens do mundo, somando-se às evidências de que esses ecossistemas, que tendem a receber menos proteção de conservação do que as florestas, funcionam como importantes sumidouros de carbono.
“As pessoas não estão prestando atenção a esses ecossistemas”, disse a bióloga Toby Kiers, da Universidade Vrije de Amsterdã, uma das autoras do novo artigo. “O que queremos fazer com esses dados é iluminar alguns desses padrões ocultos no subsolo.”
Mais de 70% das espécies de plantas terrestres dependem de fungos micorrízicos arbusculares, que, além de transportar nutrientes e armazenar carbono, ajudam a estabilizar o solo e proteger as plantas do estresse ambiental.
Segundo a bióloga, “não sabemos onde as redes estão muito saudáveis e onde estão ameaçadas”.
No novo estudo, Kiers e seus colegas se propuseram a “construir uma imagem melhor” dessa infraestrutura subterrânea. Eles começaram compilando dados de centenas de artigos publicados, com análises de 16 mil amostras de solo de todo o mundo. Os autores desses artigos já haviam calculado a densidade dos filamentos fúngicos, conhecidos tecnicamente como hifas, nessas amostras. A densidade foi definida como o número de metros de hifas por centímetro cúbico de solo.
Os cientistas usaram esses dados —junto com informações sobre as condições ambientais onde as amostras foram coletadas— para treinar um modelo de inteligência artificial. O modelo então previu a densidade fúngica em locais ao redor do globo, incluindo aqueles que não haviam sido amostrados anteriormente.
Os pesquisadores também fotografaram amostras de fungos cultivados em laboratório com um robô de imagem de alta tecnologia, desenvolvido por Thomas Shimizu, biofísico do Instituto Amolf em Amsterdã e um dos autores do estudo, e sua equipe. O robô capturou imagens de alta resolução das hifas, permitindo que os cientistas determinassem a largura dos filamentos.
Juntos, esses dados sobre a densidade global dos fungos e a largura de suas hifas ramificadas permitiram que os pesquisadores estimassem o comprimento total e a massa dessas redes fúngicas subterrâneas.
As pastagens apresentaram densidades mais altas de fungos micorrízicos arbusculares do que qualquer outro ecossistema. Pontos particularmente ricos incluíram os Everglades da Flórida, o pântano de Sudd no Sudão do Sul e a estepe tibetana.
As descobertas não foram uma surpresa total. Pesquisas anteriores já haviam sugerido que as pastagens são especialmente ricas em fungos micorrízicos arbusculares.
Mas o novo estudo destaca a importância desses ecossistemas em escala global, segundo a ecologista especializada em fungos micorrízicos Liz Koziol, da Universidade do Kansas (Estados Unidos), que não participou da pesquisa.
“Comparar todos esses conjuntos de dados ao redor do mundo é um trabalho incrível”, afirmou ela. “É simplesmente impressionante olhar para o mapa de calor global.”
Os cientistas também descobriram que a densidade dessas redes era cerca de 50% menor em solos usados para cultivo agrícola do que em áreas não cultivadas, embora mais pesquisas sejam necessárias para estabelecer uma ligação entre as práticas agrícolas e a saúde das micorrizas, de acordo com Kiers.
De fato, os pesquisadores reconhecem que as descobertas vêm acompanhadas de considerável incerteza e que existem algumas regiões e ecossistemas, como as terras áridas, que são especialmente pouco estudados.
Kiers disse esperar que as descobertas da equipe ajudem a orientar políticas de conservação e gestão de terras que protejam a vida na superfície e as vastas redes de fungos abaixo dela. “Porque, uma vez que elas desaparecem, é muito difícil trazê-las de volta.”
Fonte ==> Folha SP – TEC