Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Jane Goodall se tornou ícone para cientistas – 02/10/2025 – Ciência

Mulher idosa com cabelo branco preso abraça um chimpanzé jovem, segurando-o próximo ao peito. Ela veste colete preto sobre camisa verde e está sentada em ambiente externo com fundo desfocado de vegetação.

A maioria das pessoas conhece Jane Goodall, que morreu nesta quarta-feira (1º) aos 91 anos, como uma conservacionista de cabelos brancos que aparecia em entrevistas e palestras e fazia discursos na ONU em defesa da natureza. Para cientistas, no entanto, é a jovem Jane Goodall que seguiu chimpanzés selvagens por semanas a fio que permanece como um ícone.

“Sempre haverá apenas uma Jane Goodall”, disse o especialista na origem da linguagem Michael Tomasello, da Universidade Duke, nos Estados Unidos.

Em 1957, a carreira científica de Goodall começou com um telefonema. Na época, ela tinha apenas 23 anos e trabalhara como garçonete e secretária. Mas havia estudado profundamente sobre animais e queria encontrar uma maneira de trabalhar com eles.

Ela ligou para o paleoantropólogo Louis Leakey, que na época estava descobrindo fósseis de humanos primitivos e primatas na África. A jovem o impressionou tanto que ele ofereceu apoio para uma expedição à Tanzânia, onde ela observaria chimpanzés.

Goodall começou seu trabalho no Centro de Pesquisa Gombe Stream em 1960. Os chimpanzés lá se acostumaram com sua presença, permitindo que ela aprendesse a diferenciá-los. Logo, a britânica começou a notar que os animais se comportavam de maneiras surpreendentes.

Ela observou um chimpanzé macho, a quem mais tarde chamou de David Greybeard, deliberadamente quebrar um caule de capim e inseri-lo em um cupinzeiro para pegar insetos. Mais tarde, viu outros chimpanzés também usando ferramentas.

Quando Goodall relatou suas observações a Leakey, ele ficou atônito. Fabricar ferramentas parecia ser uma característica distintiva dos humanos e muito além da capacidade de um mero símio.

“Agora devemos redefinir ‘ferramenta’, redefinir ‘homem’ ou aceitar os chimpanzés como humanos”, afirmou ele.

Goodall também descobriu um rico sistema de comunicação entre os chimpanzés de Gombe. Os sons que emitiam não eram ruídos aleatórios, e sim chamados distintos. Os animais complementavam esses chamados com gestos feitos com as mãos e a cabeça.

Quanto mais Goodall observava os chimpanzés de Gombe, mais eles se destacavam como indivíduos. Alguns dos símios eram dominantes, enquanto outros permaneciam na base da hierarquia. Alguns eram gentis, outros eram cruéis, e muitos eram ambos.

Goodall, que obteve seu doutorado pela Universidade de Cambridge (Reino Unido), compartilhou suas observações tanto em artigos científicos quanto em livros extremamente populares. Alguns especialistas a criticaram por dar nomes aos chimpanzés de Gombe em vez de números e por sugerir que eles tinham personalidades individuais.

Mas sua escrita atraiu gerações de novos cientistas que realizaram mais pesquisas sobre chimpanzés e outros primatas. “Foi depois de ler seus livros que coloquei minhas botas e binóculos e fui para a selva”, afirmou a especialista em chimpanzés Catherine Crockford, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva.

Muitas das observações iniciais de Goodall revelaram-se notavelmente prescientes. “Ela abriu a janela para a mente dos chimpanzés”, disse o biólogo evolutivo Martin Surbeck, da Universidade Harvard.

Estudos subsequentes demonstraram que muitos animais além dos chimpanzés têm personalidades. “Foi uma mudança de paradigma”, afirmou Marc Bekoff, especialista em mentes e comportamento animal na Universidade do Colorado, Boulder, e amigo próximo e colaborador frequente de Goodall.

Crockford e outros pesquisadores também confirmaram que os chimpanzés se comunicam com uma riqueza de chamados e gestos. Seus trabalhos recentemente levantaram a possibilidade de que algumas das partes fundamentais da linguagem possam ter estado presentes no ancestral comum de chimpanzés e humanos.

Jill Pruetz, primatologista da Universidade Estadual do Texas, disse que a observação de Goodall sobre chimpanzés fabricando ferramentas permanece como uma das descobertas mais importantes já feitas sobre o comportamento animal. “Isso nos fez reexaminar nossa própria espécie e repensar a maneira como consideramos e tratamos outros animais.”



A disposição de Jane para colaborar foi fundamental para o sucesso de todo o nosso trabalho. Ela era uma verdadeira cientista.

Pesquisadores descobriram desde então que os chimpanzés são ainda mais versáteis na fabricação de ferramentas do que Goodall percebeu. Pruetz, por exemplo, observou chimpanzés na África ocidental fabricando lanças, que usavam para apunhalar macacos.

Essas descobertas mostraram que os chimpanzés não são programados para fazer certas ferramentas; em vez disso, eles desenvolvem culturas de fabricação de ferramentas. Goodall não percebeu na época, mas em Gombe ela havia descoberto apenas uma cultura de chimpanzés entre muitas.

Como cientista, o trabalho de Goodall se estendeu muito além da evolução humana, chegando até ao estudo de pandemias. Ela colaborou com Beatrice Hahn, virologista da Universidade da Pensilvânia, para documentar vírus semelhantes ao HIV nos chimpanzés de Gombe.

Hahn afirmou que os registros detalhados que Goodall acumulou sobre os chimpanzés —mapeando suas famílias e interações— tornaram possível rastrear a disseminação do vírus da imunodeficiência símia (VIS) entre os chimpanzés. Os registros também revelaram que o VIS prejudicava a saúde e a fertilidade dos chimpanzés.

Nos anos posteriores, Hahn desenvolveu sua colaboração inicial com Goodall em Gombe para demonstrar que o HIV evoluiu originalmente do VIS em chimpanzés, ultrapassando a barreira entre espécies por meio da caça de animais silvestres.

“A disposição de Jane para colaborar foi fundamental para o sucesso de todo o nosso trabalho”, afirmou Hahn. “Ela era uma verdadeira cientista.”

Goodall registrou chimpanzés cometendo graves atos de violência, incluindo infanticídio. E, ainda assim, também os via como indivíduos com vidas ricas.

De fato, o que diferenciava Goodall era sua profunda empatia tanto por animais quanto por humanos e sua capacidade de se conectar com pessoas em todo o mundo, segundo Joe Walston, vice-presidente executivo de conservação global da Sociedade de Conservação da Vida Selvagem.

Em livros, documentários, entrevistas e palestras, Goodall manifestou-se sobre a necessidade de proteger os animais selvagens do mundo e seus habitats. De acordo com Walston, ela era “movida por um desejo de poder proteger aquilo que estava estudando”.

O Instituto Jane Goodall, que ela fundou em 1977, financia pesquisas científicas e projetos de conservação em todo o mundo. Também administra o Roots & Shoots, um programa global que ajuda jovens ao redor do mundo a liderar projetos de conservação e humanitários em suas comunidades.

“Ela era muito boa com os jovens”, disse Jeanne McCarty, que anteriormente liderou o Roots & Shoots e viajou com Goodall. “Ela manteve a curiosidade, energia e entusiasmo que todos nós temos quando crianças e às vezes perdemos. Nunca a vi perder isso.”



Fonte ==> Folha SP – TEC

Relacionados