“Não houve antes dele rei algum que se tivesse voltado, como ele, para Iahweh, de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força, em toda a fidelidade à Lei de Moisés; nem depois dele houve algum que se lhe pudesse comparar.”
Essas palavras, que resumem, para o(s) autor(es) do Segundo Livro dos Reis, a carreira de Josias, rei de Judá (648-609 a.C.), praticamente não têm paralelo na literatura do Antigo Testamento. Josias é igualado ao seu glorioso ancestral, o rei David, maior monarca do reino unificado israelita, e, em sua fidelidade a Deus, chega a superá-lo. Essas e outras passagens da Bíblia hebraica sugerem fortemente que o reinado de Josias foi o palco de alguns dos eventos mais importantes para a evolução da religião israelita antiga rumo ao monoteísmo. Simplificando um pouco, podemos dizer que Josias dá o penúltimo e decisivo passo nessa direção.
As pistas a esse respeito estão tanto no Segundo Livro dos Reis (capítulos 22 e 23) quanto lá atrás, no Pentateuco ou Torá, no livro do Deuteronômio (o quinto na ordem do Antigo Testamento). Isso porque a narrativa sobre o governo de Josias começa com a descoberta, durante reformas do Templo de Jerusalém, de um “livro da Lei” que teria se perdido.
A leitura do misterioso livro por parte dos altos oficiais do Templo e da corte de Jerusalém desencadeia um amplo programa de reformas religiosas e políticas, as quais espelham justamente a visão singular do livro do Deuteronômio. Isso faz com que a grande maioria dos especialistas considere que o texto encontrado no Templo era uma versão do Deuteronômio, provavelmente composta por círculos sacerdotais durante o reinado de Josias ou um pouco antes.
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Os discursos que compõem o texto são atribuídos ao profeta Moisés e retomam parte da legislação (como os Dez Mandamentos) presente em livros anteriores do Pentateuco, como o Êxodo. Mas o tom do Deuteronômio é muito diferente. A palavra-chave dele talvez seja “centralização” em todos os aspectos. O povo de Israel deverá adorar a um único Deus, ter um único rei, um único local consagrado ao culto divino em Jerusalém. Todos os outros templos e altares deverão ser destruídos, todos os outros deuses são abominações estrangeiras que não têm lugar no território israelita.
Bem, é justamente esse o “programa de governo” adotado por Josias, de acordo com a Bíblia hebraica. Nenhum santuário fora de Jerusalém ou dedicado a outros deuses teria sobrevivido, e o rei chega a espalhar ossos humanos por cima dos altares para que eles se tornem impuros e nunca mais sejam usados. As medidas são especialmente rigorosas em Betel, antigo centro cúltico do reino israelita do Norte, já então destruído pelos assírios havia quase um século, como vimos no episódio anterior desta série.
Esse último ponto indica, para muitos pesquisadores, que Josias ambiciona controlar ao menos algumas áreas do antigo reino de Israel, recriando o que seria uma monarquia unificada de Judá e Israel, como a de seu ancestral David. (Esse grande reino talvez nunca tenha existido, na verdade, mas isso é assunto para outro momento.)
O momento em que Josias inicia sua grande reforma político-religiosa provavelmente também é significativo. O domínio do Império Assírio sobre Judá enfim está se enfraquecendo, com o colapso paulatino da autoridade imperial a partir de 631 a.C. Aliás, a comparação literária entre o Deuteronômio e os tratados impostos pelos assírios a seus vassalos indica que a corte de Josias estava usando a linguagem dos antigos senhores imperiais de forma subversiva. Do preâmbulo à lista de maldições para quem romper a aliança com Deus, a estrutura espelha a dos textos da Assíria (mais sobre isso neste texto, em inglês). O Deuteronômio troca a fidelidade ao imperador mesopotâmico pela fidelidade a Deus.
A grande ironia é que as reformas do rei naufragaram por causa do último grande aliado da Assíria. O faraó Necao 2º buscava resgatar as forças do Império Assírio, encurraladas e quase exterminadas pelos babilônios. Para isso, o monarca egípcio tinha de passar perto do território de Josias. O rei de Judá tentou impedi-lo e foi morto pelas forças do Egito.
Mas, se Josias acabou derrotado, como foi que sua perspectiva acabou predominando nos textos da Bíblia? Eis o tema do nosso próximo episódio. Até lá!
Fonte ==> Folha SP – TEC