Acabo de me dar conta de que ainda não tinha abordado o monasticismo neste espaço. É uma lacuna gigantesca, considerando a importância da tradição monástica para a história religiosa do mundo, seja nas comunidades cristãs, seja em outras fés. Começo a sanar isso falando de uma obra que é um relato das agruras e da beleza dessa tradição sob a perspectiva desta década do século 21 –sim, ainda existem monges no Brasil de 2026, por mais estranho que isso possa parecer para alguns.
E também ex-monges, como Tito Leite, autor de “A Casa dos Malditos” (editora Zahar, 168 págs.). Natural do Ceará, o escritor vivia, até pouco tempo atrás, num mosteiro beneditino em Olinda, e narra com tremenda honestidade tanto os motivos que o levaram a se afastar da ordem monástica quanto os que o tinham atraído para a vida no claustro de início.
Fico tentado a descrever o livro de Leite, meio de brincadeira, como uma mistura das célebres “Confissões” de santo Agostinho (354-430 d.C.) com “O Nome da Rosa”, de Umberto Eco – cujo principal cenário também é um mosteiro da Ordem de São Bento, afinal de contas. (Aqui, posso estar sendo influenciado por ter relido o romance de Eco pela enésima vez não faz muito tempo.)
É claro que não há nenhum manuscrito misterioso desencadeando assassinatos nas memórias do autor cearense. As semelhanças que enxergo com “O Nome da Rosa” vêm da capacidade de Leite de revelar a vida religiosa em toda a sua crueza dolorosa –mesquinhez, disputas de poder, preconceito e hipocrisia–, sem descuidar do que ela também pode ter de luminosa.
“Eu sempre acreditei que um ato contemplativo é aquilo que o mundo não enxerga e se revela numa vida escondida no Evangelho, num estado de suspensão e recolhimento em Deus”, escreve Leite. “A contemplação é um estado em que a graça de Deus permanece na vida interior de cada ser humano que, sem reserva, se deixa moldar pelas mãos do Criador.”
Passagens cheias de lirismo, como essa, aparecem quando o autor fala do carinho que sentia pelos ritmos da vida no mosteiro e pela liturgia, em escalas de cânticos e orações que vão da aurora ao anoitecer de uma maneira que pouco se alterou ao longo dos séculos.
Essas passagens, bem como as referências do autor àquilo que a sabedoria monástica tentou compreender sobre o coração humano desde que essa tradição surgiu, funcionam como um respiro em meio às tribulações de sua narrativa, além de valerem, por si sós, como pequenas aulas do que já significou ser um monge nos últimos milênios.
Os dois lados da vida no mosteiro se encontram quando Leite recorda, misturando ironia e ternura, as primeiras orações da manhã. O costume nesse momento, as chamadas Laudes, é que um dos monges entoe a frase “Senhor, abri os meus lábios”, enquanto os demais respondem “E anunciarei o vosso louvor”. Companheiros de claustro brincavam que, quando era a vez dele, Leite cantava “Senhor, abri os meus olhos”, por causa da ressaca.
Com efeito, ele não conseguia controlar o consumo de álcool nos bares de Olinda, e é isso o que o faz parar na “Casa dos Malditos” do título –uma instituição para religiosos que tentam se livrar de vícios e outros problemas de saúde mental. Também não conseguia manter seu voto de castidade e sofria pelo amor não correspondido por uma escritora que chama de Monica (talvez não por acaso, o nome da mãe de santo Agostinho, também canonizada).
A passagem pela instituição não foi suficiente para que ele se reconciliasse com o que a vida monástica estipulava, mas Leite não despreza a experiência religiosa ao decidir deixar a comunidade.
“No corredor, um monge olha para mim como quem olha para flores roubadas da sua estação e fala: ‘O irmão apostatou da fé’. Há quem diga que sou um homem que perdeu o sagrado. Digo o contrário, agora é que o encontrei. Contemplarei Deus na minha família, no meu trabalho, na minha escrita e em cada gesto de vida que pulsa no chão do meu sertão.” Seu testemunho transcende estereótipos e respostas fáceis, e merece ser ouvido.
Fonte ==> Folha SP – TEC