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Lutz, um desafio

Lutz, um desafio

Lilian Dreyer
Jornalista e escritora. Autora da biografia Sinfonia Inacabada – A Vida de José Lutzenberger.
 
– Vocês já repararam que a Natureza não produz lixo?
A pergunta desconcertava a piazada, nas pequenas salas de aula que eventualmente recebiam a visita de José Lutzenberger. Podiam citar qualquer processo da vida natural, sem nunca encontrar algum que produzisse resíduo problemático – lixo. Isso porque a Natureza trabalha em ciclos fechados: rejeito de um processo é alimento de outro. As folhas que uma árvore solta no inverno, por exemplo, elas ficam indefinidamente rolando pelo chão? Negativo, elas são logo desmanchadas por batalhões de pequenos viventes, como formigas, fungos e bactérias, que se alimentam dessas folhas, deixando como resíduo os minerais que raízes ávidas irão buscar para alimentar as árvores.
Mais do que provocar sorrisos surpresos nas crianças, esse tipo de descoberta abria a porta para a compreensão do que é e para que serve a Ecologia. Uma descoberta que, por incrível que pareça, com frequência também era vista em escritórios e auditórios bastante sofisticados. Ainda hoje muita gente influente tem dificuldade em perceber a Ecologia como uma ciência, cujo estudo e aplicação são da mais alta relevância para o progresso e o bem-estar da sociedade humana.
Lutzenberger, a quem muitos chamavam de professor, mas que acabou se tornando famoso como “o Lutz”, não tencionava atuar como ativista ambiental quando, aos 44 anos de idade, deixou a Europa e retornou à sua Porto Alegre natal. A decisão de abandonar posição e alto salário em indústria química derivou de uma crise de consciência, é verdade. Engenheiro agrônomo que vinha atuando ao redor do mundo, nos anos finais da década de 1960 ele chega à conclusão de que ele mesmo já não se autoriza a prosseguir. Entrava em cena o uso em larga escala da química na agricultura, de alto impacto sobre os sistemas naturais e, com isso, o trabalho dele toma rumos que batem de frente com sua formação de naturalista. Uma formação desenvolvida e aprofundada desde a infância. E que, com o passar do tempo, passou a guiar todo o seu arcabouço ético.
Nascido em 1926, Lutz cresceu solto na paisagem ainda quase intacta de Porto Alegre. O pai dele, que havia deixado a Alemanha para nunca mais voltar depois de conhecer o front na Primeira Guerra, incentivava a mente curiosa do filho e, na prática, também as incursões do menino pela “natureza selvagem”. A mãe, brasileira de Novo Hamburgo, mulher generosa e atuante na comunidade, não era assim tão adepta dessas liberdades, mas, pela via do amor pela jardinagem, acabou descortinando para o filho um pátio e toda uma redondeza propícios à ânsia dele por contato com gente, bichos, plantas, terra, rio e arroios. Este ponto de partida evoluiu para a diplomação como agrônomo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, pós-graduação em química nos Estados Unidos, domínio fluente de cinco idiomas, estudo apaixonado de diferentes ciências, participante e palestrante em incontáveis simpósios internacionais, consultor, empresário, paisagista, ministro de Estado, mais de quarenta premiações, livros impactantes publicados. E, sim, ativista. Além de ecólogo, Lutz tornou-se ecologista. Membro fundador da Agapan, a Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural. Criador da Fundação Gaia, centro de desenvolvimento e demonstração de soluções para um viver eco-lógico.
Ante a insistência da humanidade em negar alto risco de colapso, a trajetória de Lutzenberger, hoje ainda mais do que em seu tempo de vida, o autoriza a demandar que nossa cultura entre em sintonia com o que nos alimenta.
Nosso atual modelo de progresso quase sempre propõe a eliminação de ecossistemas, quando não de todo um bioma”, escreveu ele em seu derradeiro livro. “Diante da complexidade da ecosfera, nos comportamos como crianças fascinadas com a própria destreza mecânica. Confrontados com um computador de última geração, o desmantelamos com machado, alicate, serra e chave de fenda. Depois, com as chapas, fios e plásticos, passamos a fazer modelos de aviõezinhos… É isto, uma infantilidade, o que estamos fazendo com a Amazônia e com todos os ecossistemas do mundo.”
Combater ou interagir? Cem anos após seu nascimento, o professor continua a nos lançar o desafio. E a sinalizar caminho para renovadas esperanças:
“Mas se, com reverência e conhecimento, penetrarmos a lógica da Natureza, quem sabe as alturas que serão atingíveis?”.
 



Fonte ==> Folha SP

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