O microbioma humano —os trilhões de microrganismos que vivem em nosso intestino— foi um ecossistema estável por dezenas de milhares de anos antes de mudar rapidamente nos países industrializados, levantando possíveis preocupações para a saúde das pessoas na era moderna, informaram cientistas na última quarta-feira (7).
Em um estudo com africanos e sul-americanos, pesquisadores identificaram mais de 600 espécies de bactérias que talvez já tenham sido comuns no intestino, mas que hoje são raras ou estão totalmente ausentes nas pessoas da maioria das sociedades.
Muitos desses microrganismos podem ter sido benéficos à saúde humana, afirmou Justin Sonnenburg, cientista especializado em microbioma da Universidade Stanford e um dos autores do novo estudo, publicado na revista Nature.
Segundo sua hipótese, as mudanças no microbioma podem ter contribuído para o aumento de alguns distúrbios comuns no mundo industrializado, de alergias à demência.
“Até que ponto pode ser prejudicial o fato de termos alterado tanto nossos microbiomas?”, disse Sonnenburg. “Acho que este estudo indica que pode ser bastante prejudicial.”
Nossos primeiros ancestrais, semelhantes aos macacos, tinham um microbioma adaptado a uma dieta de plantas e carne crua. Os cientistas suspeitam que sua composição tenha mudado centenas de milhares de anos atrás, quando os primeiros seres humanos começaram a cozinhar usando o fogo.
À medida que os seres humanos se expandiram para fora da África, há cerca de 50 mil anos, ainda viviam dos animais que caçavam e das plantas silvestres que coletavam. Foi somente há cerca de 10 mil anos que os agricultores começaram a domesticar plantas cultivadas, provocando outra provável mudança no microbioma.
Nas últimas décadas, ocorreu uma transformação ainda mais significativa, à medida que bilhões de pessoas passaram a consumir alimentos ricos em açúcar e grãos refinados. A medicina moderna também pode ter exercido um efeito profundo: os antibióticos salvaram inúmeras vidas, porém esses medicamentos também podem destruir microrganismos benéficos no intestino.
Para traçar a história do microbioma humano, Sonnenburg e seus colegas estudaram sociedades de todo o mundo em diferentes níveis de industrialização. Alguns dos resultados mais impressionantes vieram dos hadza, um pequeno grupo de caçadores-coletores da Tanzânia.
Ao estudar amostras de fezes de voluntários hadza, Sonnenburg e seus colegas encontraram uma grande variedade de bactérias. “Há aproximadamente 270 espécies em um californiano médio e cerca de 730 em um hadza médio”, disse Sonnenburg.
Ainda mais impressionante é a diversidade dessas espécies. Muitas são raras ou estão totalmente ausentes nos Estados Unidos e em outros países industrializados.
Sonnenburg e seus colegas se perguntaram até que ponto o microbioma dos hadza de hoje se assemelha ao conjunto de micróbios que os primeiros caçadores-coletores carregavam.
Eles decidiram comparar os hadzas com outros povos que ainda mantêm um estilo de vida semelhante. Os cientistas começaram a colaborar com antropólogos que estudam um grupo boliviano chamado Tsimane.
Os tsimanes vivem em aldeias remotas da Amazônia, onde mantêm pequenas lavouras e continuam a caçar e coletar alimentos. Embora os hadzas e os tsimanes tenham culturas um tanto semelhantes, suas histórias são muito diferentes.
Os tsimanes descendem de povos que deixaram a África há 50 mil anos e chegaram às Américas há cerca de 15 mil anos. A ancestralidade dos hadzas, por outro lado, restringe-se inteiramente à África.
Sonnenburg e seus colegas usaram novos e poderosos métodos para detectar DNA bacteriano em amostras de fezes dos Tsimane e compararam os resultados com os obtidos entre os Hadza.
Os pesquisadores identificaram 848 espécies compartilhadas pelos dois grupos, contudo raras ou ausentes nos países industrializados. Em seguida, analisaram 636 espécies que eram particularmente abundantes nas amostras.
Os cientistas constataram que cada espécie tendia a apresentar mutações distintas, dependendo de ter sido encontrada entre os Hadza ou os Tsimane. Esse padrão levou a equipe a concluir que essas espécies microbianas já habitavam o intestino de caçadores-coletores dezenas de milhares de anos atrás.
Os hadzas continuam a abrigá-los até hoje, graças ao seu modo de vida de caçadores-coletores. Já os ancestrais dos tsimanes migraram para as Américas pela ponte terrestre de Bering há 15 mil anos, talvez até antes.
Essa separação geográfica impossibilitou a disseminação de micróbios dos povos do Velho Mundo para as Américas. Os ancestrais caçadores-coletores dos tsimanes continuaram a abrigar algumas das mesmas espécies que seus antepassados, mas suas bactérias adquiriram mutações próprias ao longo de milhares de anos.
No conjunto, as descobertas sugerem que os caçadores-coletores compartilharam um ecossistema característico de micróbios intestinais por dezenas de milhares de anos. “Nossa biologia provavelmente foi moldada, em grande medida, por esses micróbios”, afirmou Sonnenburg.
As bactérias ancestrais podem ter sido importantes, por exemplo, para treinar nosso sistema imunológico ou sintetizar compostos de que nosso corpo necessita. E, à medida que alguns microrganismos desapareceram nas sociedades modernas, outros ocuparam seu lugar.
Essa mudança pode estar afetando nossa saúde. “O resultado é um microbioma muito diferente daquele que o genoma humano evoluiu para encontrar”, talvez desencadeando inflamações e outras alterações prejudiciais à saúde, afirmou Sonnenburg.
Michael Gurven, antropólogo da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e um dos autores do novo estudo, afirmou que o microbioma ancestral pode ajudar a explicar por que os tsimane parecem estar protegidos contra doenças cardíacas e outras doenças crônicas.
Mas Marie-Claire Arrieta, cientista do microbioma da Universidade de Alberta que não participou da pesquisa, alertou que as pessoas em países industrializados não deveriam tentar cultivar um microbioma de caçadores-coletores.
Os cientistas ainda sabem pouco sobre os 636 micróbios intestinais da lista de Sonnenburg e os possíveis danos que eles podem causar. “Há um grande potencial infeccioso”, afirmou.
Arrieta defendeu o estudo dos efeitos benéficos que os micróbios ancestrais podem ter no corpo humano, bem como a busca por maneiras de restaurar essas funções específicas.
“A ideia de que deveríamos voltar aos microbiomas ancestrais não faz muito sentido”, disse Arrieta. “Mas, sem dúvida, é importante estudá-los para compreender algumas dessas funções microbianas que foram perdidas.”
Fonte ==> Folha SP – TEC