Dados do Censo 2022 divulgados nesta quinta (9) somam-se aos de outras pesquisas para evidenciar o impacto da maternidade nos salários das mulheres —algo que não tem sido levado em conta como deveria na formulação de leis e de políticas públicas.
Há mais mulheres com curso superior (28,9%) do que homens com o diploma (17,3%) no país. Entretanto o rendimento médio mensal delas (R$ 4.591) é 37,5% menor do que o deles (R$ 7.347). Em todos os níveis de escolaridade elas ganham menos; no universitário a diferença é maior.
Também verifica-se disparidade salarial quando são consideradas as áreas de atuação. Só em três delas pessoas do sexo feminino recebem mais do que as do masculino: construção (R$ 3.326 ante R$ 2.119), indústrias extrativas (R$ 5.161 ante R$ 4.489) e transporte, armazenagem e correio, onde a média delas é só R$ 10 maior, com R$ 2.597.
Nesses setores, mulheres são clara minoria —apenas 3,6%, 14% e 9,3%, respectivamente. Naqueles em que a discrepância de rendimentos é maior em favor dos homens, elas são maioria.
Na educação, mulheres representam 77% dos trabalhadores e têm remuneração de R$ 3.512, enquanto homens recebem R$ 6.627. Em atividades financeiras e seguros, onde 52% dos profissionais são do sexo feminino, a média dos homens é de R$ 7.763, e a delas, de R$ 4.596.
Fator essencial para essa diferença é a maternidade. Mães acumulam o cuidado do lar e dos filhos com suas profissões. Assim, não conseguem se dedicar tanto, por meio de carga horária elevada, ao trabalho e à carreira. Sem a dupla jornada, homens têm maior facilidade de alcançar cargos mais bem remunerados.
Por isso, creches são fundamentais para a empregabilidade das mulheres e a paridade salarial. Mas só 38,7% das crianças entre 0 e 3 anos estavam matriculadas em creches em 2024, enquanto a meta do Plano Nacional de Educação (PNE) de 2014 era 50%.
Ademais, homens têm somente cinco dias de licença-paternidade. O Congresso precisa modernizar a legislação, o que pode incluir uma licença parental compartilhada entre pais e mães.
Uma mudança cultural para que homens dividam as tarefas domésticas também contribuiria decisivamente para um mercado de trabalho mais igualitário.
O problema exige medidas integradas em várias frentes. Apenas leis que obrigam a paridade salarial —como a proposta pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), aprovada em 2023— tendem a ser pouco eficazes.
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Fonte ==> Folha SP