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Milei precisa aproveitar o voto de confiança dos argentinos – 27/10/2025 – Opinião

Homem de terno e gravata levanta os braços e sorri em comemoração diante de multidão que registra o momento com celulares. Pessoas ao fundo também aplaudem e sorriem, em ambiente iluminado por luzes de palco.

Quando sua coalizão perdeu por larga margem as eleições da província de Buenos Aires, em setembro, o argentino Javier Milei teve uma atitude que o diferenciou de seus parceiros de direita populista Donald Trump e Jair Bolsonaro (PL). Em vez de vociferar contra fraudes imaginárias nas urnas, ele reconheceu a “clara derrota” e prometeu “corrigir erros políticos”.

Milei também fará bem se não se deixar levar por mais ufanismo e prepotência com a vitória um tanto surpreendente no pleito legislativo nacional de domingo (26). Mesmo com o triunfo, o mandatário, dado a desqualificar a oposição e querer atropelar o Parlamento, está longe de uma posição confortável no governo.

Seu partido, A Liberdade Avança (LLA), continuará dependente da aliança com o centro-direitista PRO, do ex-presidente Mauricio Macri, para dispor de cerca de 40% das cadeiras somadas na Câmara dos Deputados e no Senado, uma condição básica de governabilidade. As dificílimas reformas pela frente, porém, exigem mais do que isso.

O prestígio do presidente que se intitula um libertário foi abalado por um escândalo de corrupção que envolve sua irmã e seu advogado. O comparecimento dos eleitores no domingo, abaixo dos 70%, foi o menor desde a redemocratização do país, em 1983.

Na economia, principal campo de batalha de Milei, a Argentina ainda lida com deficiências severas que o Brasil superou nos anos 1990: risco de explosão inflacionária, taxas de câmbio artificialmente controladas pelo governo e incapacidade de pagar dívidas com o mercado externo.

Desde o ano passado, a população padece com doses cavalares de ajustes, sobretudo nas despesas públicas, para reverter a herança desastrosa deixada pelo populismo da esquerda peronista. O remédio amargo, ao menos, trouxe melhorias palpáveis.

Depois de uma previsível recessão, a renda nacional voltou a crescer, embora em ritmo incerto, e a pobreza caiu. A inflação, que superou 200% em 2023, deve fechar este 2025 abaixo de 30%.

Muito do sucesso no controle da carestia, entretanto, está associado à sobrevalorização do peso argentino ante o dólar, que barateia as importações —e, como ensinaram por aqui os primeiros anos do Plano Real, essa estratégia não pode ser mantida por prazo indeterminado.

Com mais compras e menos vendas no comércio internacional, agrava-se a crônica escassez de dólares no país, que tem de recorrer a juros exorbitantes para atrair capital externo. A situação só não é pior devido à ajuda financeira propiciada pelo aliado Trump e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Na metade que resta de seu mandato, Milei será pressionado, pelos credores e pelas circunstâncias, a abandonar o controle artificial da moeda, com riscos para a inflação e sua força política. Até por falta de opções, os argentinos avalizaram a continuidade das reformas liberais.

editoriais@grupofolha.com.br



Fonte ==> Folha SP

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