Na sexta-feira passada (12), o meu colega russo Mikhail (Misha) Verbitsky, pesquisador do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), foi detido no aeroporto de Yerevan, capital da Armênia. Contra ele haveria um mandado russo por “incitamento ao terrorismo”. Foram dias densos e intensos no Impa, tentando descobrir o que estava acontecendo, buscando contato com o advogado, pedindo apoio ao governo brasileiro e apelando às autoridades armênias pela sua libertação. Agora há pouco, nesta terça-feira (16), Misha me escreveu informando que, depois de ter sido libertado, ontem, foi autorizado a deixar a Armênia. Ele já se encontra em segurança e, finalmente, descansando depois do susto. Na longa mensagem, também conta o que ocorreu.
Misha lembra um pouco um personagem gentil de um conto de Natal russo: barba longa grisalha, personalidade afável e sorriso fácil. É um excelente matemático, especialista em geometria diferencial e geometria complexa: por seu trabalho científico, foi honrado com convite para proferir palestra no Congresso Internacional de Matemáticos de 2014, na Coreia do Sul. Nascido em Moscou em 1969, veio em 2017 para o Brasil, onde tem se distinguido também como formador de jovens pesquisadores.
Crítico das autoridades russas em publicações na internet, a essa altura já temia eventuais represálias, mas não sabíamos quão grande era o risco. Ainda voltou a seu país, a última vez para o funeral do pai, tomando um risco calculado. Mas a situação se agravou e desde então seu nome foi incluído numa lista de “procurados” da Rússia —o que, por força de acordo entre os dois países, provocou automaticamente a sua detenção na Armênia. “Cometi um erro terrível”, reconhece.
Permaneceu em regime de prisão solitária durante 72h, aguardando sem saber se a Rússia formalizaria o pedido de extradição, o que, independentemente da eventual decisão das autoridades armênias, arrastaria a sua detenção por várias semanas. “Foi muito difícil”, escreveu, “eu estava muito preocupado porque todo mundo dizia que eu iria passar meses na prisão”. “Não tinha nada para ler, eu sou viciado em leitura, não conseguia dormir nem mesmo depois de horas de exercício.”
Mas se manteve produtivo: “Escrevi umas 40 páginas de matemática e estou muito orgulhoso dos resultados!”
E aí as coisas se resolveram “miraculosamente”. Os três dias se passaram sem que o governo russo tivesse apresentado o pedido de extradição, não sabemos muito bem por quê. Em entrevista, o advogado de Misha conjecturou, ironicamente, que “talvez tenha sido porque era feriadão na Rússia”. Mas é claro que os apelos da comunidade matemática, discretas ações diplomáticas de bastidores, e os esforços dos muitos amigos do Misha tiveram um papel na acertada decisão da Armênia de libertá-lo de modo tão célere e autorizá-lo a deixar o país.
“Passei 90h na Armênia, 72h na cadeia e o restante numa letargia mental sem sono. Ainda estou meio tonto, mas sinto que as pessoas que lutaram por mim merecem que eu agradeça antes de cair no sono pelos próximos dias, tentando esquecer o que aconteceu e o que poderia ter acontecido se eu tivesse menos sorte. Estou livre graças a vocês: estou certo de que sem a pressão pública eu não teria sido libertado tão rapidamente. Obrigado, obrigado, obrigado.”
Fonte ==> Folha SP – TEC