Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Morre Gunther von Hagens, criador de mostra com cadáveres – 29/07/2026 – Ciência

Homem de meia-idade usando chapéu preto e jaqueta de couro está ao lado de um modelo anatômico detalhado que mostra músculos e tecidos humanos sem pele.

Gunther von Hagens, cientista alemão cujas exposições itinerantes de corpos com ossos e músculos à mostra atraíram dezenas de milhões de visitantes mas também críticas de grupos religiosos e de direitos humanos, morreu na última sexta (24) em um hospital na cidade de Heidelberg, na Alemanha. Ele tinha 81 anos.

Rebecca Brewer, a assistente pessoal dele, disse que a morte foi causada por uma hemorragia cerebral. Von Hagens havia sido diagnosticado com doença de Parkinson em 2008.

Desde que sua primeira exposição, “Body Worlds”, estreou em Tóquio em 1995, as mostras de Von Hagens atraíram mais de 50 milhões de visitantes. Além de apresentações itinerantes em dezenas de países, houve instalações permanentes na Alemanha, nos Países Baixos e nos Estados Unidos.

No fim dos anos 1970, Von Hagens desenvolveu a plastinação. O processo consistia em remover a pele e a gordura de um corpo, substituir os fluidos por um material plástico resistente, colocá-lo em uma posição realista e, então, usar calor, luz ou gás para endurecê-lo em uma câmara especializada.

O cientista e sua equipe levavam centenas de horas para processar cada corpo, um procedimento conduzido em instalações que ele mantinha na Alemanha e na China. Ele também aplicava o processo a animais de grande porte —uma de suas figuras mais famosas apresenta um cavaleiro sobre um cavalo empinado, ambos sem pele.

No início, ele obtinha corpos por meio de faculdades de medicina. Mais tarde, conforme se tornava famoso, passou a receber doações de pessoas interessadas em ver seus corpos preservados para o bem público.

“Há momentos durante esta exposição em que você sente até uma profunda admiração”, escreveu o crítico Edward Rothstein em uma resenha de 2013 sobre uma mostra do “Body Worlds” para o jornal americano The New York Times. “Você está vendo as forças da vida em exibição nessa matéria morta, e essas forças são extraordinárias.”

Nem todos concordavam. Se o bem público estava sendo servido era uma questão central da controvérsia que perseguiu Von Hagens.

Havia, é claro, um desconforto diante de um salão cheio de cadáveres sem pele, a um passo de um filme de terror. Por vezes, a exibição provocou reações intensas: um homem atacou um corpo com um martelo durante uma mostra em Londres.

Muitos líderes religiosos também se opuseram, sobretudo na Alemanha, onde as memórias de experimentos humanos e a profanação de corpos sob o regime nazista ainda estavam vivas.

“‘Body Worlds’ é possivelmente a conclusão lógica dos crimes nazistas, quando milhões de corpos foram queimados por seus assassinos até virarem cinzas ou transformados em sabão, e suas peles em abajures”, disse Andreas Nachama, rabino e líder cívico em Berlim, ao jornal britânico The Independent em 2001.

Ele foi acusado de aceitar corpos de prisioneiros executados da China, embora não houvesse evidências de que conhecesse a origem dos cadáveres. Posteriormente, proibiu sua equipe de usar corpos provenientes do país asiático e instituiu um protocolo rigoroso para aceitar doações.

“Body Worlds” e suas ramificações são um empreendimento com fins lucrativos e, embora Von Hagens insistisse que estava democratizando a anatomia e fortalecendo a compreensão pública da ciência médica, algumas pessoas criticaram suas exposições por terem pouca informação e muito apelo ao choque.

Ele certamente tinha talento para os holofotes. Em 2002, fez a primeira autópsia pública da Grã-Bretanha em quase 200 anos, desafiando os avisos do governo de que tal exibição era ilegal. Mas ele não foi processado, e o evento foi posteriormente transmitido na TV.

Críticos o apelidaram de “dr. Morte” e o compararam a Josef Mengele, que conduziu experimentos em prisioneiros no campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau. Talvez não tenha ajudado o fato de que, com seu onipresente chapéu preto, Von Hagens se assemelhasse a Arnold Toht, o agente nazista interpretado por Ronald Lacey no filme “Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida”.

Von Hagens disse que adotou o chapéu em homenagem à pintura de Rembrandt de 1632, “A Lição de Anatomia do Dr. Tulp”, na qual Tulp, mostrado examinando a musculatura do braço de um cadáver diante de colegas, também usa chapéu.

E ele insistia que seus críticos não o compreendiam.

“Não vejo isso como uma sala cheia de cadáveres ou como um salão da morte”, disse ele em uma entrevista em 1998. “O que isso faz é construir pontes de volta ao seu próprio corpo. Quando você olha para os modelos, pode se reconhecer como membro da espécie humana. Sua humanidade se torna clara.”

Gunther Gerhard Liebchen nasceu em 10 de janeiro de 1945, em Skalmierzyce, uma cidade na Polônia ocupada pelos alemães. Quando tinha alguns dias de vida, seus pais —Gerhard, cozinheiro da SS, e Gertrud (Knaack) Liebchen— o colocaram em um cesto de roupa suja e fugiram para o oeste, à frente do avanço do exército soviético. Eles se estabeleceram na cidade de Greiz, no que se tornaria a Alemanha Oriental.

Quando Gunther tinha 6 anos, bateu a cabeça em uma porta. Ele sangrou muito, resultado de uma hemofilia não diagnosticada. Passou seis meses no hospital, onde desenvolveu interesse pela medicina. Após o ensino médio, trabalhou como enfermeiro antes de estudar medicina na Universidade de Jena.

Participou de protestos contra o governo comunista da Alemanha Oriental e foi preso em 1969 por tentar fugir para a Áustria. No ano seguinte, o governo da Alemanha Ocidental pagou pela sua libertação e retorno, algo que fazia frequentemente por prisioneiros políticos.

Concluiu seus estudos de medicina na Universidade de Lübeck em 1973 e, dois anos depois, o doutorado em anestesiologia pela Universidade de Heidelberg.

Casou-se com Cornelia von Hagens em 1975. Desconfortável com seu sobrenome —Liebchen é um termo carinhoso antiquado em alemão—, ele adotou o dela. Divorciaram-se em 1989. Em 1992, ele se casou com a médica Angelina Whalley, diretora criativa do “Body Worlds”.

Além dela, Von Hagens deixa três filhos do primeiro casamento, Rurik, Bera e Ton von Hagens, e seis netos.



Fonte ==> Folha SP – TEC

Relacionados