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Neandertais produziam fogo há 415 mil anos, diz estudo – 10/12/2025 – Ciência

Duas mãos masculinas seguram um objeto pequeno e marrom, de onde saem fios finos e brilhantes. Fundo escuro destaca as mãos e o objeto, com iluminação que realça texturas da pele e do material.

Arqueólogos disseram ter descoberto a evidência mais antiga conhecida de produção intencional de fogo. Segundo eles, neandertais acenderam fogueiras em uma área onde hoje é o condado de Suffolk, na Inglaterra.

O achado foi descrito em um artigo publicado nesta quarta-feira (10) na revista Nature. As evidências analisadas pelos autores são do sítio de Barnham, identificado no fim do século 19.

O primeiro indício de que ali poderia ter sido feita uma fogueira surgiu em 2021, quando houve a identificação de sedimentos que haviam sido aquecidos propositalmente. Depois de quatro anos de um trabalho minucioso, provou-se que essas cinzas não tiveram origem natural.

“O momento-chave foi a descoberta de pirita de ferro”, explicou o arqueólogo Nick Ashton, curador de Coleções Paleolíticas do Museu Britânico em Londres e autor principal da nova pesquisa. “Acreditamos que eles [neandertais] levaram pirita para o local com a intenção de fazer fogo. E isso tem enormes implicações.”

A pirita é um mineral usado para produzir faíscas que iniciam o fogo e é muito rara na região, o que indica ter sido levada até o local propositalmente. No sítio, também havia machados de pedra que podem ter sido usados para triturar o mineral.

Os pesquisadores afirmaram que todo esse material era de uma fogueira utilizada repetidamente e situada perto de um bebedouro onde os neandertais acampavam.

Até então, a evidência mais antiga conhecida de produção de fogo era de cerca de 50 mil anos em um sítio no norte da França, também atribuída a neandertais.

O uso controlado do fogo foi revolucionário para a linhagem evolutiva humana. O ato permitiu cozinhar, fornecer proteção contra predadores e proporcionar calor, ajudando caçadores-coletores a prosperar em áreas com ambientes mais frios.

Por meio do cozimento, por exemplo, nossos ancestrais conseguiram eliminar patógenos da carne e toxinas de raízes e tubérculos comestíveis. Esse processo, hoje rotineiro, tornou alimentos mais macios e digeríveis, liberando energia corporal do intestino para impulsionar o desenvolvimento do cérebro.

Ser capaz de consumir uma maior variedade de alimentos favoreceu uma melhor sobrevivência e permitiu alimentar grupos maiores de humanos, segundo os pesquisadores.

O fogo também pode ter contribuído para a evolução social. O seu uso durante a noite contribuiu para a socialização, levando, por exemplo, à contação de histórias e ao desenvolvimento de linguagem e de sistemas de crenças.

“A fogueira seria um centro social”, afirmou o arqueólogo Rob Davis, do Museu Britânico, coautor do estudo.

“Somos uma espécie que usou o fogo para moldar o mundo ao nosso redor”, acrescentou o arqueólogo, observando que as novas descobertas mostram que essa característica é algo que nossa espécie, Homo sapiens, tem em comum com os neandertais e possivelmente com outros parentes humanos, como os denisovanos.

O sítio paleolítico em Barnham data de antes dos fósseis mais antigos conhecidos de Homo sapiens na África.

Os pesquisadores disseram acreditar que os neandertais, nossos primos evolutivos próximos, foram os criadores do fogo, uma evidência da inteligência e engenhosidade desses humanos arcaicos.

O paleoantropólogo Chris Stringer, também coautor do estudo, disse que nenhum resto fóssil humano foi encontrado no sítio de Barnham. Mas ele destacou que pedaços de um crânio com características de um neandertal e com cerca de 400 mil anos foram encontrados em meados do século 20 a menos de 160 quilômetros dali, em uma cidade chamada Swanscombe.

De acordo com Stringer, os fragmentos do crânio de Swanscombe correspondem a fósseis de neandertais de um sítio perto de Burgos, na Espanha, que datam de aproximadamente 430 mil anos atrás.

Os neandertais foram extintos há cerca de 39 mil anos, pouco depois de o Homo sapiens ter se espalhado pelo território europeu. O legado deles está presente nos genomas da maioria da população, devido ao relacionamento entre Homo sapiens e neandertais.

Trabalhos arqueológicos anteriores no local proporcionaram aos cientistas uma boa compreensão de como era o lugar na época em que a fogueira foi feita, com uma rica variedade de animais, desde elefantes até mamíferos menores e aves, além de evidências de atividade humana na forma de marcas de corte em ossos de animais.

Existem evidências arqueológicas da África datando de mais de um milhão de anos atrás de humanos utilizando fogo de ocorrência natural —de incêndios florestais ou raios—, mas esses locais não apresentavam evidências de produção deliberada de fogo.

Os pesquisadores passaram quatro anos realizando testes para mostrar que as evidências de Barnham eram de fogo propositalmente produzido. Segundo eles, diversas evidências demonstraram isso, incluindo testes geoquímicos que revelaram temperaturas superiores a 700 graus Celsius com uso repetido de fogo no mesmo local.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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