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Nobel de 2025 homenageia conquistas da ciência básica – 11/10/2025 – Ciência

Homem idoso de óculos e camisa branca observa atentamente uma estrutura geométrica laranja translúcida. Ao fundo, estantes com livros em ambiente interno.

Pelo menos três repórteres perguntaram na terça-feira (7) a John Clarke, 83, um dos laureados com o Nobel de Física deste ano, como exatamente chegamos a tecnologias como o celular a partir da descoberta do tunelamento quântico macroscópico e quantização de energia há 40 anos.

O físico britânico não deu uma resposta direta. Talvez porque não exista uma linha direta fácil para ligar o laboratório às nossas vidas cotidianas. Frequentemente, essa linha é o resultado da atuação de um ou mais cientistas; é uma ideia aqui, um avanço ali e muitas experiências fracassadas no meio, às vezes ao longo de décadas.

Os Nobéis científicos deste ano reforçam esse ponto. Os prêmios em Medicina, Física e Química homenagearam conquistas enraizadas em pesquisas fundamentais de décadas atrás. Especialistas interpretam as seleções da Academia Real Sueca de Ciências como um reconhecimento da importância da ciência básica e lenta, um trabalho alimentado a partir do desejo de compreender melhor o mundo.

Em uma época em que a eficiência governamental tem sido utilizada para justificar cortes acentuados no financiamento científico nos Estados Unidos, os prêmios Nobel de ciência oferecem um argumento a favor da curiosidade metódica: a exploração aparentemente inútil pode assentar os tijolos para um caminho a lugares que ainda não podemos ver.

“Não é apenas que demorou muito tempo entre os esforços e o prêmio, mas que o próprio esforço foi intergeracional”, disse o físico e historiador da ciência David I. Kaiser, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). “Não são coisas para as quais podemos ter perguntas bem formuladas, muito menos respostas claras e convincentes [dentro de um prazo específico].”

O Nobel de Fisiologia ou Medicina deste ano foi concedido a três cientistas —Mary Brunkow, 63, Fred Ramsdell, 64, e Shimon Sakaguchi, 74— que descobriram por que o sistema imunológico do corpo não ataca a si mesmo. Um desses cientistas iniciou experimentos na década de 1980 que não produziram resultados significativos até 1995, e os outros dois laureados continuaram essa pesquisa até o início dos anos 2000. O conhecimento que eles revelaram levou a avanços no tratamento do câncer e se tornou a base para mais de 200 ensaios clínicos em andamento.

“Começou com a retirada de um timo de um rato”, afirmou Jo Handelsman, diretora do Instituto Wisconsin para Descobertas da Universidade de Wisconsin-Madison. “Quem teria imaginado que isso seria uma ideia empolgante para o futuro da medicina?”

Clarke e outros dois físicos, o francês Michel H. Devoret e o americano John M. Martinis, ganharam o Nobel de Física por demonstrarem que duas propriedades da mecânica quântica, a teoria que descreve como o universo subatômico se comporta, podem ser observadas em sistemas visíveis a olho nu.

Em uma entrevista concedida no dia do anúncio da láurea, Clarke afirmou que ele e seus colegas “não tinham como compreender a importância” de seu trabalho. “Você simplesmente não sabe como isso vai evoluir, porque outras pessoas vão pegar a ideia e desenvolvê-la.”

Por último, na quarta-feira (8), o Nobel de Química foi concedido a três químicos — Susumu Kitagawa, 74, Richard Robson, 88, e Omar M. Yaghi, 60— pelo desenvolvimento das estruturas metalorgânicas, estruturas moleculares porosas com área superficial excepcionalmente alta, derivadas de experimentos realizados dos anos 1980 até o início dos anos 2000.

O conceito forma a base de materiais que estão sendo usados hoje para tornar a produção industrial mais eficiente e sendo desenvolvidos para atender necessidades reais, como a coleta de água do ar em lugares secos.

Décadas de investigação abriram caminho para a tecnologia, tratamentos e inovações do amanhã.

É prático acreditar que, quando investimos tempo ou dinheiro, isso deve ter algum retorno previsível. Mas diga isso a Agnes Pockels, uma química alemã autodidata, cuja fascinação pelas bolhas de sabão feitas durante a lavagem de louça estabeleceu as bases para o campo da nanotecnologia décadas após sua morte. Ou os relatos de Isaac Newton, cujas reflexões sobre uma maçã caindo de uma árvore inspiraram uma primeira teoria da gravidade, uma base que no fim levou os humanos ao espaço.

“A pesquisa básica é de onde vêm os grandes avanços”, disse Handelsman.

Alguns benefícios vêm na forma de subprodutos mais imediatos desse tipo de trabalho. Uma análise estima que pesquisa e desenvolvimento não relacionados à defesa nos EUA têm um retorno de até 300% em crescimento de produtividade. Outro relatório descobriu que cada US$ 1 investido pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH), o maior financiador público de pesquisa biomédica do mundo, gera US$ 2,56 em atividade econômica. A busca para detectar ondulações no espaço-tempo inspirou avanços em computação, lasers, sensores e óptica.

“Olhando para trás, é sempre bastante fácil demonstrar o poder da curiosidade e da imaginação”, afirmou Robbert Dijkgraaf, presidente-eleito do Conselho Internacional de Ciência e ex-diretor do Instituto de Estudos Avançados em Princeton, Nova Jersey. Mas pode ser difícil prever exatamente como, quando ou onde, olhando para a frente.

“Criar espaços onde as pessoas podem pensar livremente e explorar livremente é, de certo modo, a maneira mais eficiente de gastar seus dólares de pesquisa”, acrescentou Dijkgraaf.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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