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Nova York: Após 100 dias, Mamdani decepciona pessimistas – 15/04/2026 – Lúcia Guimarães

Quatro pessoas vestidas formalmente participam de coletiva. Homem de terno azul fala em púlpito com brasão, ao fundo mural com céu azul e nuvens. Outros três observam, dois homens e uma mulher, todos sorrindo.

Quem visitou Manhattan deve ter notado o hotel Grand Hyatt, um prédio colado na icônica estação Grand Central, na rua 42, na esquina com a avenida Lexington. A fachada espelhada é um símbolo dos anos 1980 e do estilo que, como o grande crítico e historiador Ken Frampton me disse, confirma Nova York como um cemitério da arquitetura moderna na segunda metade do século 20.

Mas eu digresso. Menciono o Grand Hyatt porque ele vai ser demolido. Sim, o primeiro empreendimento do outrora esbelto empresário Donald Trump nesta ilha, tão cobiçada pelos que, como ele, nasceram do outro lado do rio, vai virar pó para dar lugar a um prédio de 95 andares.

O motivo? A forte demanda do mercado por espaço comercial. “Wall Street e o setor financeiro estão ansiosos para pagar aluguéis recorde,” disse Scott Rechler, CEO da construtora responsável pelo projeto.

Espera aí. A eleição do socialista muçulmano Zohran Kwame Mamdani, em novembro passado, não ia provocar um êxodo de financistas lotando balsas em direção a praias mais hospitaleiras ao grande capital?

Ao completar cem dias de governo, o prefeito de Nova York registra 48% de aprovação na pesquisa mais recente e comemora uma vitória política.

A governadora Kathy Hochul, que havia resistido à sua candidatura —como a maior parte da liderança democrata— reverteu a oposição a qualquer novo imposto para os ricos e propôs taxar o segundo imóvel (desde que avaliado em mais de US$ 5 milhões) de quem não mora em tempo integral no estado. A cobrança vai contribuir para aliviar o rombo fiscal deixado na cidade pelo malandro prefeito Eric Adams.

A mesma pesquisa revelou que 56% dos nova-iorquinos afirmam acreditar que a cidade está na direção certa, contra 31%, pouco antes da eleição. A demagogia da poderosa elite de Nova York, estenografada pela imprensa, deu a um público global, fascinado com a ascensão meteórica do jovem ugandense-americano, a impressão de que ele governaria como um esquerdista caricato, imobilizado por dogma ideológico.

Aos 34 anos, o prefeito da maior metrópole americana decepcionou os pessimistas na facilidade com que seduziu Donald Trump e examinou a viabilidade das promessas de campanha. Conseguiu ao menos uma vitória inicial expressiva ao obter apoio financeiro da governadora para iniciar o programa piloto de creche grátis para crianças de 2 anos.

Com a ginga de comunicador em vídeos na rede social, que alistou jovens em massa no ano passado, Mamdani recrutou a cantora Cardi B para convocar os pais para registrar seus filhos no programa.

Mamdani confundiu aliados previsíveis que tomaram seu sorriso constante como sinal de acomodação. Reuniu uma equipe mais definida por experiência e foco executivo do que por fidelidade pessoal.

Nesta semana, um de seus projetos para baixar o custo de alimentos, o das mercearias operadas pela prefeitura, foi alvo de críticas de pequenos comerciantes denunciando concorrência injusta.

Apesar do tamanho da economia de Nova York, prefeituras dependem do estado e do governo federal para financiar promessas. Seria fácil reduzir a energia do Mamdani onipresente —ouvindo inquilinos em audiências, removendo neve e tapando buracos de rua— a performance populista. Ele deixa claro que usa sua presença como apelo ao público para se engajar na vida da cidade e ver um governo como fonte de soluções.



Fonte ==> Folha SP

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