Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Papagaio sem meio bico cria ‘esgrima’ e vira alfa do bando – 16/05/2026 – Reinaldo José Lopes

Papagaio sem meio bico cria 'esgrima' e vira alfa do bando - 16/05/2026 - Reinaldo José Lopes

Ninguém é xará do Batman à toa, senhoras e senhores. Bruce é um sujeito durão, ou talvez a falta de meio bico –justamente a metade superior, que, em condições normais, seria sua única arma– tenha sido o que despertou seus instintos mais belicosos. Seja como for, quem manda no pedaço é ele, e ai de quem discordar.

Bruce, apresso-me a acrescentar, é um kea (também grafado como “quia”), ou papagaio-da-nova-zelândia (Nestor notabilis). O acidente que o privou de quase toda a parte de cima de seu bico fez com que o macho desenvolvesse uma técnica inovadora de “esgrima” com a parte de baixo, e hoje ele é o alfa inconteste de seu pequeno bando em cativeiro.

Detalhes sobre o reinado de Bruce foram publicados recentemente na revista científica Current Biology, num estudo coordenado por Alexander Grabham, da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia. O papagaio vive na Reserva da Vida Selvagem Willowbank com outros 11 companheiros de espécie (8 machos e 3 fêmeas). Não se sabe como a parte de cima do bico lhe foi tirada.

Ele já tinha se notabilizado por sua engenhosidade tecnológica –uma pesquisa anterior detalhara como o bicho emprega pedrinhas, que equilibra com a ajuda da língua e da parte inferior do bico, para arrumar as penas, algo que outros keas fazem com o maxilar, quase ausente em Bruce. Desta vez, porém, os cientistas resolveram observar a vida social da ave, e o resultado não poderia ser mais impressionante.

Primeiro, num total de 227 “interações agonísticas” (em bom português: brigas) entre os bichos do grupo acompanhadas pelos pesquisadores, Bruce participou de 36 –e ganhou todas.

Ele também é o único papagaio ali a receber um trato em suas penas (o mesmo procedimento feito em si próprio com a ajuda das pedrinhas) da parte de outras aves que não são suas parceiras sexuais. Por fim, Bruce tem acesso preferencial a todos os comedouros postos à disposição dos keas pela equipe da reserva. Em 83% dos casos, ele foi o primeiro a chegar ao comedouro, nunca foi tirado deles por outra ave e, em quatro dias, teve acesso exclusivo a todos os comedouros por pelo menos 15 minutos antes que outro papagaio se atrevesse a lhe fazer companhia.

Para Grabham e seus colegas, o provável segredo do sucesso do bicho é a maneira como enfrenta os rivais. Normalmente, os keas atacam seus adversários bicando de cima para baixo e mirando o pescoço (tática que corresponde a 70% das bicadas).

Bruce, porém, usa a parte remanescente do bico para atacar para a frente, seja usando o pescoço como “mola”, seja correndo ou saltando, “distribuindo ataques nas costas, na cabeça, nas asas e nas patas”, escrevem eles.

O papagaio também usa as patas nos ataques, assim como seus companheiros de espécie, mas, por incrível que pareça, o emprego do bico é bem mais eficiente (deslocando os adversários em 73% dos ataques, contra 48% quando a pancada é com os pés).

Bruce não é o único animal com deficiência a manter uma posição dominante em seu bando, lembram os autores do estudo –há casos semelhantes em primatas, mas em geral eles envolvem uma aliança com outro indivíduo, enquanto o kea mantém seu posto sozinho, com mão (ou, vá lá, meio bico) de ferro. E o melhor: seus hormônios do estresse têm os menores níveis de todos no bando. É bom ser o rei.



Fonte ==> Folha SP – TEC

Relacionados