O Paquistão bombardeou as forças do governo talibã nas principais cidades do Afeganistão na madrugada de sexta-feira e descreveu a situação como uma “guerra aberta”, aumentando as tensões em uma região instável e com armas nucleares. Os ataques do Paquistão atingiram a capital Cabul e a cidade de Kandahar, onde ficam os líderes do Talibã.
Foi a primeira vez que Islamabad atacou o Talibã em vez de militantes supostamente apoiados por eles, em uma ruptura drástica das relações entre os vizinhos islâmicos.
Fontes de segurança no Paquistão disseram que os ataques envolveram mísseis ar-solo contra escritórios e postos militares do Talibã em Cabul, Kandahar e na província de Paktia. Houve confrontos terrestres em vários setores ao longo da fronteira entre as nações islâmicas.
O Talibã afirmou ter atacado, em retaliação, instalações militares paquistanesas.
Ambos os lados relataram mortes, divulgando números bastante divergentes, os quais a Reuters não conseguiu confirmar de forma independente.
“Nossa paciência se esgotou. Agora é guerra aberta entre nós e vocês (Afeganistão)”, disse o ministro da Defesa do Paquistão, Khawaja Muhammad Asif, na sexta-feira.
Os ataques ameaçam desencadear um conflito prolongado ao longo da fronteira de 2.600 km, com as relações entre Cabul e Islamabad abaladas pela acusação do Paquistão de que o Afeganistão abriga militantes que realizam ataques do outro lado da fronteira. Os talibãs negam e afirmam que a segurança do Paquistão é um problema interno.
O Paquistão possui armas nucleares e suas capacidades militares são muito superiores às do Afeganistão. No entanto, o Talibã é especialista em guerra de guerrilha, tendo adquirido experiência em décadas de combates com as forças lideradas pelos EUA, antes de retornar ao poder em 2021.
Segundo diplomatas e veículos de notícias, Rússia, China, Turquia e Arábia Saudita estavam tentando mediar a situação. O Irã, que faz fronteira com o Afeganistão e o Paquistão, também se ofereceu para ajudar, segundo o Ministério das Relações Exteriores. A oferta surge em meio a negociações cruciais entre Teerã e Washington para resolver a antiga disputa nuclear e evitar novos ataques dos EUA.
O porta-voz do Talibã, Zabihullah Mujahid, confirmou que as forças paquistanesas realizaram ataques aéreos em partes de Cabul, Kandahar e Paktia, mas não deu detalhes. Na sexta-feira, o Ministério da Defesa do Talibã afirmou ter “realizado com sucesso” ataques aéreos com drones contra alvos militares no Paquistão.
O Ministro da Informação do Paquistão, Attaullah Tarar, disse que os ataques foram realizados por militantes do Talibã paquistanês e que todos os drones foram abatidos por sistemas antidrone, “sem vítimas”.
Vídeos compartilhados por autoridades de segurança paquistanesas mostraram clarões na noite, provenientes de disparos ao longo da fronteira, e o som de artilharia pesada.
Um vídeo de ataques a Cabul, cuja localização a Reuters conseguiu verificar, mostrou densas colunas de fumaça preta subindo de dois locais e um incêndio de grandes proporções em parte da capital.
Tamim, um motorista de táxi de Cabul, disse que estava dormindo quando ouviu o som de uma aeronave, seguido por ataques ao que parecia ser um depósito de armas.
“Acordamos, e o avião chegou e lançou duas bombas, depois foi embora novamente. Depois disso, ouvimos explosões”, disse ele. “Todos, em pânico, desceram correndo do segundo andar da casa. A munição dentro do depósito continuava explodindo sozinha.”
Testemunhas da Reuters em Cabul disseram que muitas sirenes de ambulâncias podiam ser ouvidas após fortes explosões e o som de jatos.
Mosharraf Zaidi, porta-voz do governo paquistanês, afirmou em uma publicação no X que a ação foi uma resposta a “ataques afegãos não provocados”, acrescentando que 133 combatentes do Talibã afegão foram mortos e mais de 200 ficaram feridos, com 27 postos destruídos e nove capturados.
Mujahid, porta-voz do Talibã, afirmou que 55 soldados paquistaneses foram mortos e 19 postos tomados, enquanto oito combatentes do Talibã foram mortos, 11 ficaram feridos e 13 civis ficaram feridos na província de Nangarhar.
Os confrontos entre o Paquistão e o Afeganistão em outubro deixaram dezenas de soldados mortos, até que negociações mediadas pela Turquia, Catar e Arábia Saudita puseram fim às hostilidades.
O Paquistão está em alerta máximo de segurança desde que lançou ataques aéreos no início desta semana, que Islamabad afirmou terem como alvo campos de treinamento do Tehreek-e-Taliban (TTP), ou Talibã paquistanês, e militantes do Estado Islâmico no leste do Afeganistão.
Cabul e as Nações Unidas afirmaram que os ataques mataram 13 civis e reiteraram que não permitem que militantes operem em seu território. O Talibã também alertou que haverá uma forte resposta.
O governo da província de Punjab, no Paquistão, afirmou na sexta-feira que estava em alerta máximo para possíveis ataques de militantes e que realizou uma série de operações de segurança, levando 90 cidadãos afegãos para centros de detenção para deportação.
A agência de notícias estatal afegã Bakhtar News Agency, sediada em Nangarhar, divulgou uma imagem do que alegou ser um batalhão de homens-bomba e citou uma fonte de segurança afegã afirmando que os terroristas estavam equipados com coletes explosivos e carros-bomba e estavam preparados para atacar alvos importantes.
Fonte ==> Exame