Um dos superpoderes do pensamento científico é a capacidade de reconhecer que não existe nada que seja realmente banal no mundo ao nosso redor. Quando você se dá conta de que as coisas sempre são mais estranhas e intrigantes do que a superfície delas sugere, até a água suja que vaza de uma pia pode ser o estalo para uma descoberta relevante.
É, eu sei que o exemplo pode parecer específico demais, além de um tanto nojento, então acrescentemos mais uma camada de esquisitice: morcegos. Mamíferos voadores que adejam em torno do líquido que cai da pia, bebendo aquela água às dezenas. A peça final que compõe a cena é o fato de que os bichos estão saindo de seu refúgio natural na floresta amazônica para ir atrás de eflúvios de cozinha. Por que será? E quais podem ser as consequências do comportamento dos animais?
Essas são as questões investigadas por um artigo que acaba de sair no periódico científico Acta Amazonica. O trio de autores do estudo, formado por Paulo Estefano Bobrowiec, William Magnusson e João Araújo de Souza –todos do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia)–, flagrou o estranho hábito dos morcegos em duas localidades. Ambas ficam no estado do Amazonas, respectivamente na BR-319 e na beira do rio Aripuanã, nos municípios de Beruri e Novo Aripuanã.
Um dos locais corresponde ao fundo de um restaurante, enquanto o outro é um vilarejo ribeirinho. Nos dois casos, o cano que sai das pias da cozinha despeja água diretamente no chão, a pouca distância das edificações.
Ali, o líquido empoçado atrai ao menos três espécies diferentes de morcegos que comem frutas: Artibeus literatus, Artibeus obscurus e membros dos gêneros Uroderma, Vampyriscus ou Platyrrhinus.
A incerteza sobre a identidade dos morcegos se deve, em parte, ao fato de que os animais aparecem voando aos montes, num intervalo curto de tempo. Só em Novo Aripuanã, em que havia duas grandes poças, os cientistas contaram 27 indivíduos em 6 segundos numa delas e 17 morcegos em 5 segundos na outra. É possível que centenas deles visitem o acúmulo de água por noite.
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Não há falta d’água nos rios de nenhum dos dois lugares (mesmo com as recentes ondas de seca na Amazônia). Portanto, não é para se hidratar que os morcegos estão atrás de água suja de pia. O mais provável, segundo os pesquisadores, é que os bichos buscam micronutrientes, como sais minerais, que são escassos no solo do oeste amazônico e na dieta deles.
Ora, os seres humanos cozinham usando sal e com panelas de metal, lavam pratos com detergentes e jogam restos de comida pelo ralo –possíveis fontes de sódio, potássio, ferro e cálcio, por exemplo. Aliás, o fato de que apenas morcegos comedores de frutas (mas não os que se alimentam de sangue e insetos) aparecem nas poças pode ser outro indício de que a ideia está correta, já que os demais morcegos já resolvem essa carência nutricional com o cardápio de sempre.
Há, porém, o lado sombrio desse cenário. Beber aquela água pode expor a fauna nativa de mamíferos voadores a vírus e micro-organismos de origem humana, fazendo com que os morcegos, tão vilanizados (injustamente) por carregarem o possível ancestral do vírus da Covid-19, sejam infectados por causadores de doenças contra os quais não têm defesas. Ao menos nesse caso, minimizar o risco é simples: basta enterrar o cano que sai da cozinha. Oxalá todos os nossos problemas ambientais fossem desse tipo.
Fonte ==> Folha SP – TEC