Quatro meses atrás este blog registrou surpresa por não constar da lista antidoping –ainda– um anestésico como a cetamina (por induzir dissociação, ela costuma ser classificada como psicodélico, em sentido amplo). A surpresa agora aumenta diante do fato de outros psicodélicos tampouco figurarem no rol de substâncias interditadas no esporte.
O tema volta à baila com um artigo de Marina Portes (pós-doc que é atleta de resistência) e Leandro Bertoglio, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no Journal of Psychoactive Drugs. O título traduzido é “Psicodélicos e saúde mental em atletas de resistência: um estudo transversal no Brasil”.
A dupla do departamento de farmacologia reuniu respostas de 28 corredores, maratonistas e triatletas que se dispuseram a preencher seu questionário. Constataram que quase um terço (29%) relatava depressão ou ansiedade e que perto de dois terços (64%) não encontravam apoio para saúde mental no esporte.
Faz parte do senso comum a ideia de que atletas, em especial os de alto desempenho, são pessoas saudáveis e disciplinadas, pouco propensas a transtornos mentais. Não é o caso, como deixaram claro a ginasta Simone Biles na Olimpíada de Tóquio (2020) e a tenista Naomi Osaka em Roland Garros (2021).
O assunto já não é tabu. Em 2019, o Comitê Olímpico Internacional (COI) publicou declaração de consenso sobre saúde mental de atletas de elite produzida por um painel de especialistas que revisou 14. 689 artigos sobre o tema. Ali se registrava que transtornos de saúde mental afetam de 5% a 35% desses esportistas.
No ano passado, Portes e Bertoglio já tinham produzido com Isabel Werle outro artigo, em Acta Neuropsychiatrica, questionando se não haveria lugar para psicodélicos na prática de esportes. Na população em geral, o uso se acha em alta, inclusive no Brasil.
Faz sentido, porque psicodélicos clássicos como psilocibina de cogumelos “mágicos” (Psilocybe cubensis, por exemplo) e dimetiltriptamina (DMT) da ayahuasca e da jurema-preta têm comprovado efeito antidepressivo em testes clínicos. Apresentam ainda propriedades anti-inflamatórias, o que viria a calhar para atletas expostos a lesões e desgastes dolorosos.
Tais substâncias permanecem, no entanto, proibidas na maior parte dos países. Por outro lado, não figuram –ainda– na lista oficial da Agência Mundial Antidoping (Wada, em inglês). A exceção é MDMA (ecstasy), um tipo de anfetamina incluída entre psicodélicos em sentido amplo e interditada no esporte como estimulante.
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Para Bertoglio, faltam estudos com animais para estabelecer que efeitos os psicodélicos podem ter na fisiologia de atletas, conferindo eventual vantagem a eles frente a competidores. “Há uma lacuna no entendimento atual sobre os efeitos ‘físicos’ dos psicodélicos, e os prós e contras deles ainda são pouco investigados em comparação aos efeitos ‘mentais’, o que dificulta a tomada de decisão em contextos médicos, esportivos, corporativos etc.”
O farmacêutico da UFSC diz acreditar que possa ocorrer com eles diferenciações como a que afetou a cannabis no contexto antidoping: conforme avançaram as pesquisas, só o THC e a planta propriamente dita continuam vedados, enquanto o canabidiol (CBD) hoje está autorizado. Haverá inclusões e exclusões, prediz, e a primeira a ser analisada pode ser a psilocibina, que se acha em testes de fase três para depressão.
No levantamento com os 28 atletas, ele e Portes encontraram maioria (78,6%) favorável ao uso terapêutico de psicodélicos, se legalizados e prescritos por médicos. Isso embora uma minoria declare ter experimentado alguma vez na vida os psicoativos cannabis (10,7%), MDMA (7,1%) ou LSD (3,6%).
Também se verificou considerável desinformação entre atletas. Grande parte (61%) desconhecia benefícios terapêuticos de psicodélicos, e mais de três quartos (78%) disseram acreditar que provocam dependência química –não é o caso.
Fonte ==> Folha SP – TEC