O periódico Jama Psychiatry, da associação médica dos EUA, publicou quarta-feira (25) artigo com bons resultados contra depressão do psicodélico 5-MeO-DMT, conhecido como veneno do sapo-do-rio-colorado. Por trás do teste clínico há uma briga de foice pela propriedade intelectual da substância encontrada na natureza.
São listados no texto 33 autores, mas o nome que importa é o da húngara Velichka Valcheva, presidente da empresa irlandesa GH Research, fundada pelo dinamarquês Florian Schonharting. Participaram do ensaio 81 pacientes de 16 centros europeus, e entre os que assinam há cientistas até da Austrália e dos EUA.
Controlado por grupo de placebo, o estudo de fase 2b envolveu até três doses em progressão (6, 12 e 18 mg por inalação). Após oito dias, 23 dos 40 voluntários que receberam a droga em teste (57,5%) estavam em remissão, o que não aconteceu como nenhum dos que tomaram placebo.
A GH raramente aparecia no noticiário sobre psicodélicos até o começo de 2024, quando recebeu na Europa patente para sua versão inalável de 5-MeO-DMT, denominada GH001, como tratamento de transtornos mentais. Causou um pequeno terremoto na companhia Beckley PsyTech, que investia na mesma via de aplicação para a mesma indicação (depressão resistente a tratamento, quando a pessoa já experimentou pelo menos dois antidepressivos sem obter melhora).
A inalação representa uma alternativa de curta duração (minutos) à ingestão de psicodélicos como psilocibina, LSD e DMT da ayahuasca, cujas “viagens” podem durar várias horas. Como a profunda alteração da consciência induzida exige supervisão por profissionais de saúde, sessões longas de um eventual tratamento, se e quando regulamentado, resultariam muito caras e restringiriam o acesso.
Estratégia semelhante vem sendo perseguida por Dráulio de Araújo no Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (ICe-UFRN). Neste caso, o amplo projeto de pesquisa começou em parceria com a empresa britânica Biomind (depois rompida) para investigar o potencial antidepressivo da DMT.
O composto está presente não só na ayahuasca, já estudada pelo grupo, como também na jurema-preta, árvore da caatinga nordestina. A pesquisa atualmente se encontra em banho-maria, aguardando autorizações e financiamento para chegar à pretendida fase três.
Investidores garantem fundos milionários para GH e Beckley, esta rebatizada AtaiBeckley após injeção de US$ 50 milhões por Christian Angermayer. A patente europeia da GH pode complicar a vida da concorrente, que contava nos EUA com a via acelerada de regulamentação de “breakthrough therapy” concedida pela agência de fármacos FDA, a mesma que ergueu alguns obstáculos à GH.
As duas empresas diferem muito na origem. A Beckley tem pedigree psicodélico nobre, em sentido literal e figurado: foi fundada por Cosmo Feilding-Mellen, filho da condessa britânica Amanda Feilding, com larga tradição no campo, que morreu em 2025.
Não foram poucos no movimento libertário que viram como traição a guinada empresarial da militante que criou a Fundação Beckley e patrocinou estudos pioneiros no Imperial College de Londres.
A GH não tem nada a ver com isso. Foge do termo “psicodélicos” como o diabo da cruz e conduz seus testes clínicos com mínimo apoio psicológico para os voluntários.
A empresa prescinde, assim, das sessões de preparação e integração preconizadas no modelo convencional de psicoterapia assistida por psicodélicos (PAP) defendida pelos pioneiros nessa linha de pesquisa, por exemplo na Associação Multidisciplinar para Estudos Psicodélicos (Maps) dos EUA.
É uma tendência emergente no setor, sobretudo após a derrota da PAP com MDMA para transtorno de estresse pós-traumático em agosto de 2024. Na mesma toada, sem PAP, segue a firma Compass Pathways, com sua versão sintética (COMP360) da psilocibina de cogumelos “mágicos” também para depressão, que está em fase três e enfrenta concorrência do Instituto Usona, que não tem fins lucrativos.
Fonte ==> Folha SP – TEC