João Satt, estrategista
O ano eleitoral começa no Brasil. Março funciona como o apito inicial de uma corrida que reorganiza alianças, expõe interesses e revela forças que disputarão o futuro do país e dos estados. Nesse movimento, o tabuleiro político se mexe: traições aparecem, oportunismos se revelam e, muitas vezes, boas alternativas são descartadas antes mesmo de amadurecer. A boa política nem sempre prevalece. Não se trata de opinião: é um dado da realidade. Algo novo começa a surgir na chamada arte de promover políticos.
Durante muito tempo, campanhas foram construídas sobre slogans criativos, narrativas emocionais e disputas por curtidas e visualizações nas redes sociais. Esse modelo ainda existe, mas perdeu centralidade. Surge silenciosamente um fator cada vez mais valorizado: a estratégia competitiva. A política começa a perceber aquilo que o mundo empresarial já aprendeu há um bom tempo. Marketing e estratégia não são a mesma coisa. Estratégia é software. Marketing é hardware. Sem estratégia, a comunicação vira barulho. Sem proposta concreta, o discurso se dissolve no ar. Os brasileiros mudaram. Pesquisas sucessivas revelam um sentimento crescente de cansaço com a polarização. Desse desalento nasce hoje o maior eleitorado do país: o centro pragmático. Nos extremos há convicção. No centro há escuta ativa e reflexão. Esse eleitor observa a disputa com distância e espera algo simples: propostas objetivas para problemas complexos.
Martin Luther King dizia: “Nossa vida começa a terminar no dia em que ficamos em silêncio sobre as coisas que importam.” Talvez seja exatamente esse o momento de falar sobre o que realmente importa. O Rio Grande do Sul parte de uma base produtiva rara no Brasil. Poucos estados combinam agropecuária altamente produtiva, indústria diversificada, cooperativismo financeiro forte, universidades relevantes, capital empresarial ativo e uma cultura associativista profundamente enraizada. Essa densidade econômica cria uma vantagem estratégica: a possibilidade de formar um verdadeiro ecossistema produtivo integrado. O caminho passa por conectar vetores já presentes na economia.
Agroindustrialização avançada, bioenergia, máquinas agrícolas inteligentes, mobilidade e logística modernas, cooperativismo financeiro, saúde e biotecnologia, materiais avançados, economia digital e bioeconomia. Isolados, são setores. Integrados, formam uma arquitetura produtiva capaz de gerar renda, inovação e empregos qualificados. No século XXI, a disputa entre territórios não ocorre apenas entre ideologias. Acontece entre sistemas capazes — ou incapazes — de produzir prosperidade. Vence quem organiza melhor suas forças econômicas. Por isso a política entra em uma nova fase: menos espetáculo, mais estratégia. Menos slogans, mais soluções. No fundo, permanece a pergunta que não quer calar — simples, direta e inevitável: qual é a sua proposta?
Fonte ==> Folha SP