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Sem elefante, besouro deixa de ser jardineiro da savana – 30/05/2026 – Reinaldo José Lopes

Sem elefante, besouro deixa de ser jardineiro da savana - 30/05/2026 - Reinaldo José Lopes

Entrar no site de um dos principais periódicos científicos do mundo e dar de cara com um besourinho encarapitado em cima de uma bola de cocô de proporções colossais (ao menos da perspectiva do inseto) definitivamente não estava na minha cartela de bingo, como dizem os jovens de hoje em dia. Por mais engraçada que a imagem pareça, porém, há algo um bocado sério por trás dela – mais uma prova de como cada pedacinho da biosfera depende de efeitos-dominós que nem sempre enxergamos ou imaginamos.

O bichinho da foto no site da revista Science é uma das quase 200 espécies de besouro-rola-bosta da savana da África Oriental. O nome dos bichos, claro, não podia ser mais autoexplicativo: sua vida é produzir bolotas com as fezes dos animais da savana, sustentando a si mesmos e a seus filhotes com esse abundantíssimo recurso alimentar.

Mesmo que você seja daquelas pessoas com estômago mais delicado, peço que não pare de ler ainda. É um trabalho sujo o do besouro-rola-bosta, mas alguém tem de fazê-lo. A capacidade que eles têm de processar quantidades tremendas de cocô agiliza a reciclagem de nutrientes do ecossistema, dispersa sementes (fazendo, portanto, novas plantas germinarem) e, por incrível que pareça, até diminui a quantidade de picadas de moscas que transmitem doenças para seres humanos e o gado. (A equação é simples: menos esterco = menos moscas).

Ocorre que os besouros africanos são mais exigentes em seu cardápio do que se imagina, conforme mostrou um estudo publicado nesta semana. Os maiores entre os grandes mamíferos da savana, os elefantes (Loxodonta africana), são os principais produtores das fezes mais cobiçadas pelos rola-bosta, e, sem elas, a comunidade de espécies dos insetos sofre um abalo e tanto.

Os dados, apresentados por Finote Gijsman e seus colegas da Universidade de Princeton (EUA) em artigo científico na própria Science, começam com um experimento do tipo “bufê de cocô”. Em outras palavras, eles disponibilizaram fezes fresquinhas de nove espécies de mamíferos para os besouros e verificaram que havia uma preferência clara por cocô de paquiderme – dois terços das espécies de insetos se dirigiram ao “prato” oferecido pelos elefantes.

O passo seguinte foi usar cercas capazes de excluir a presença dos gigantes em áreas padronizadas de savana. O resultado não foi nada simpático para os rola-bosta. Nos cercados, o número de indivíduos desse tipo de inseto caiu quase 70%, e o de espécies presentes ali diminuiu em 23%. Modelos feitos pelos pesquisadores indicam que o desaparecimento dos elefantes corria o risco de produzir extinções de besouros.

E não é só isso. O último dominó a cair, depois da diminuição de elefantes e de besouros, é o próprio processo da remoção de outros tipos de fezes e o transporte de sementes (as que foram expelidas nas fezes dos animais que comerem frutos, por exemplo) pela savana.

Tudo isso fica menos eficiente sem a interação elefante/rola-bosta, possivelmente porque, mesmo quando os besouros conseguem sobreviver sem o supercocô dos paquidermes, eles já não conseguem obter a mesma quantidade de energia. Portanto, crescem menos e se tornam roladores de fezes menos eficientes. A mensagem é clara: é dessas conexões entre o gigante e o pequeno que a biosfera depende para continuar funcionando.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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