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Série sobre Cazuza é nostálgica e atual de uma vez – 11/12/2025 – Luciana Coelho

Série sobre Cazuza é nostálgica e atual de uma vez - 11/12/2025 - Luciana Coelho

Cazuza sempre viveu muito publicamente, inclusive morreu dessa forma, aos 32, em 1990. Não é de se esperar, portanto, que um documentário sobre um dos maiores nomes da música brasileira nos anos 1980 traga alguma revelação a seu respeito.

Isso é verdade em “Cazuza – Além da Música”, docussérie que o Globoplay lançou neste mês. Mas é verdade, também, que os quatro episódios produzidos pela Conspiração Filmes e dirigidos por Patrícia Guimarães somam um contexto precioso à história do artista encrustado na memória pop do país graças a composições como “Brasil”, “Exagerado” e “Faz Parte do meu Show”.

O material é sobretudo uma coleção de depoimentos das pessoas que conviveram com Cazuza, como sua mãe, Lucinha Araújo, o ex-parceiro de Barão Vermelho Roberto Frejat, os ex-namorados Sérgio Maciel, Denise Drummond e Ney Matogrosso, além de amigos, jornalistas e outros músicos do quilate de Gil e Caetano.

A essas memórias são entremeados depoimentos do próprio artista em entrevistas, cartas e em seu diário, além de trechos de seu pai, o empresário e produtor musical João Araújo, morto em 2013.

Assim, em flashes, emergem os momentos que Cazuza e o país viviam quando ele escreveu cada uma de suas composições, da pancada que é “Brasil” ao romantismo delicado de “Codinome Beija-Flor”; da provocadora “Ideologia” à incisiva, e deliciosamente amarga, “Blues da Piedade”.

Montadas com delicadeza, essas peças mostram como suas composições passaram do rock/pop com letras sobre a vida de um menino da zona sul carioca que cresceu com dinheiro e amor para as reflexões melódicas de um sujeito lidando com a Aids quando a epidemia explodia, mas a informação sobre ela era escassa e o preconceito dominava.

A doença, aliás, ocupa a maior parte da série documental —o lançamento ocorreu em 1º de dezembro, Dia Mundial do Combate à Aids. Ao contar a história de Cazuza, a produção acaba por expor um pedaço da história recente do país ainda pouco examinada.

Outra série, “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente” (HBO), faz um belíssimo retrato do período, de uma geração (ou um grupo de pessoas) que respondia à iminência da morte com uma vida intensa, e Cazuza provavelmente é o epítome disso.

Foi à Folha que o músico confirmou pela primeira vez, publicamente, que tinha Aids. O colega Zeca Camargo, então correspondente do jornal em Nova York, rememora como foi a entrevista e a espécie de teste de virtude ao qual foi submetido pelo artista.

Mas a relação com a imprensa, especialmente já na fase da doença, também teve turbulências. A entrevista concedida à revista Veja, estampada em uma capa histórica e descrita por Cazuza e seus amigos como desrespeitosa, apelativa e manipulada, ocupa um grande espaço no roteiro.

No ano seguinte ao da publicação, Cazuza morreria em decorrência do HIV. Hoje o vírus não mata como matava então, mas é impressionante o quanto suas canções permanecem atuais.



Fonte ==> Folha SP

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