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Teoria dos ‘cientistas desaparecidos’ vira fonte de dor – 07/06/2026 – Ciência

Teoria dos 'cientistas desaparecidos' vira fonte de dor - 07/06/2026 - Ciência

A vida de David Wilcock mudou para sempre quando, ainda criança, ele encontrou um livro antigo sobre óvnis que estava juntando poeira no porão. Seu pai, Donald, lembra que a obra não era voltada para crianças. David a devorou.

Já adulto, David passou a se interessar cada vez mais pelo sobrenatural. Em 2004, ele foi coautor de um livro que afirmava ser a reencarnação de Edgar Cayce, um famoso médium do século 20. Ele aparecia regularmente na popular série “Alienígenas do Passado” e criou um canal no YouTube sobre temas paranormais chamado Divine Cosmos, que tem 550 mil inscritos.

Mesmo enquanto se tornava um comentarista conhecido no assunto de vida extraterrestre, ele enfrentava crescentes problemas financeiros. Também tinha tendência à depressão. Em 2021, seu casamento de quatro anos chegou ao fim.

“Eu sabia que ele estava passando por dificuldades”, disse seu pai. Mas nem em 1 milhão de anos ele esperava o que aconteceu em abril.

Pouco antes das 11h de 20 de abril, policiais do condado de Boulder, no Colorado, foram chamados à casa de David em Nederland, no sopé das Montanhas Rochosas. Quando chegaram, Wilcock saiu segurando uma arma. “Poucos minutos após a chegada dos policiais, ele usou a arma contra si mesmo”, de acordo com o gabinete do xerife.

A dor que se abateu sobre Donald foi como uma avalanche: “Nenhum pai deveria ter que passar pelo que estou passando”, disse ele em entrevista.

Mas logo, seu luto se transformaria em uma raiva crescente, à medida que ele via a morte de seu filho se tornar combustível para uma teoria da conspiração que se espalhava pela internet.

Durante semanas, detetives amadores online vinham montando o que ficou conhecido como a teoria dos “cientistas desaparecidos” —baseada na observação de que 10 a 12 figuras envolvidas em pesquisas nucleares, aeroespaciais ou extraterrestres haviam morrido ou desaparecido.

Algumas dessas figuras, como Frank W. Maiwald, pesquisador do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, haviam morrido anos antes —no caso de Maiwald, em 2024. Outros personagens desse drama sombrio, como Anthony Chavez, um encarregado de obras aposentado do Laboratório Nacional de Los Alamos, que desapareceu no ano passado, dificilmente teriam conhecimento de qualquer informação sensível.

Talvez fosse o Irã cobrando vingança por seus próprios cientistas assassinados, ou a China tentando obter vantagem? E se os EUA estivessem silenciando seus próprios talentos, com medo do que poderiam revelar?

Não havia evidência alguma para nenhuma dessas sugestões, mas mesmo assim elas proliferaram.

A fronteira entre fato e ficção se tornou tão porosa que era inevitável que a insinuação de assassinatos em série de cientistas chegasse à Casa Branca.

“Espero que seja aleatório”, disse o presidente Donald Trump em uma entrevista. “Alguns deles eram pessoas muito importantes”, acrescentou alguns minutos depois.

A família de Wilcock divulgou um comunicado insistindo que não houve crime envolvido na morte de David, mas não foi suficiente para conter a onda conspiratória.

David “foi silenciado por se manifestar contra o governo federal e isso nunca foi tão óbvio”, disse David Woltkamp, que administra um canal de conspirações no YouTube, em uma publicação nas redes sociais.

Para Donald, a névoa de mentiras em torno do suicídio do filho pareceu uma indignidade sobreposta à tragédia. “Nada em meus 82 anos de vida chegou perto disso.”

À medida que o número de mortes e desaparecimentos incorporados à narrativa cresceu, famílias como a de Wilcock descobriram uma nova e sombria dimensão para seu luto.

Nascimento de uma teoria da conspiração

Há 73,6 milhões de americanos que trabalham em áreas científicas e relacionadas à ciência, segundo a Associação Americana para o Avanço da Ciência. O número de pessoas envolvidas em pesquisas de astrofísica e voos espaciais é, obviamente, muito menor —estima-se em 26,4 mil o total de empregos em física e astronomia apenas nos EUA. Os ocupantes desses cargos morrem, assim como todos nós. Eles desaparecem, como acontece com centenas de americanos todos os dias.

Milhares de pessoas também têm credenciais de segurança, segundo Scott A. Roecker, da Iniciativa de Ameaça Nuclear, que são distribuídas com base estrita na necessidade de conhecimento.

A ideia de que um pequeno grupo de cientistas tem acesso a uma espécie de arquivo paralelo de conhecimento secreto (encontros com alienígenas, colônias em Marte) rende bons roteiros, mas está longe de ser verdade.

“Você não causaria danos ao programa nuclear dos EUA mirando uma dúzia de funcionários ou cientistas que trabalham nele. Isso não teria um impacto estratégico”, disse Roecker.

Ainda assim, nossos cérebros têm uma tendência inerente a buscar sentido nas coisas; caso contrário, a vida seria caótica demais. Talvez por essa razão, a mente humana esteja sujeita à ilusão de agrupamento, que identifica padrões que não existem. Estudos também descobriram que teorias da conspiração proporcionam um senso de comunidade, algo que faz muita falta na sociedade atual. De repente, você deixa de ser um indivíduo isolado e passa a fazer parte de um coletivo em busca da verdade.

‘Nos afastamos da morte’

“Se você começar a procurar padrões, vai encontrá-los”, disse Elizabeth Weiss, lembrando algo que seu marido, Nick Pope, um proeminente pesquisador de óvnis, costumava dizer.

Durante sua carreira, Pope tentou separar a curiosidade genuína sobre o que existia além do nosso Sistema Solar das suposições sensacionalistas e exageradas que desacreditavam todo o campo de pesquisa extraterrestre. Após ser diagnosticado com câncer de esôfago, ele expressou o desejo de morrer em casa, o que aconteceu em abril, aos 60 anos.

“Estive com ele até seu último suspiro”, disse Weiss. “Fiquei bem ao lado dele.”

“De certa forma, não sinto nada sobre isso porque minha dor pela perda de Nick é tão avassaladora”, afirmou Weiss no final de maio, várias semanas após o falecimento do marido.

Ao mesmo tempo, ela sentia que as teorias da conspiração sobre a morte dele manchavam seu legado, a seriedade com que conduzia suas investigações.

“A teoria da conspiração transforma nossa jornada dolorosa, minha e do Nick, em uma farsa”, ela escreveu em um email. “Para acreditar na teoria da conspiração, você teria que acreditar que o governo implantou um gene de câncer que o levaria a ter câncer aos 59 anos; ou que os médicos estariam envolvidos; ou que os vários exames, de ressonâncias magnéticas a exames de sangue, teriam sido falsificados.”

Weiss é antropóloga. Ela frequentemente reflete sobre como as culturas antigas enfrentavam a mortalidade e sobre como a nossa própria cultura evita fazer isso, recorrendo a uma conspiração de silêncio.

“Nós nos distanciamos da morte”, disse Weiss. “As pessoas morrem em hospitais, então parece que a morte é algo estranho: ‘Ah, algo deve ter dado errado. Deve haver uma razão ruim para isso ter acontecido, não apenas azar’.”

Foi talvez a explicação mais sábia e humana para o motivo pelo qual, após a morte de Pope, ele se tornou mais um dos desaparecidos para os teóricos da conspiração ficarem obcecados.

“Mais um militar ligado a óvnis acaba de morrer”, dizia uma manchete no site de tecnologia Futurism. Um comentarista no Facebook questionou: “Me corrijam se eu estiver errado, mas ele não é o quarto ou quinto recentemente?”



Fonte ==> Folha SP – TEC

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