Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Trump aperta o cerco militar e econômico a Maduro | Opinião

Justiça determina que INSS suspenda 'todo e qualquer' desconto indevido em favor da Contag | Brasil

O presidente Donald Trump reuniu, segundo suas próprias palavras, “a maior força militar jamais vista na história da América do Sul”, para promover um bloqueio às exportações de petróleo na Venezuela. O pretexto inicial para mover uma poderosa frota naval, 15 mil soldados e aviões de caça foi a luta contra o tráfico de drogas, que teria como um de seus chefes o presidente Nicolás Maduro, que Trump pretende destituir do poder. Trump não descarta uma guerra contra o regime venezuelano, mas esse é um passo arriscado demais para um presidente que sempre criticou a presença militar americana em outros países em conflito, como o Afeganistão. Tanto a apreensão de petroleiros, como ocorreu no início do mês, quanto o objetivo declarado de retirar Maduro do poder são flagrantemente ilegais à luz do direito internacional. Trump dá uma demonstração de força bruta, depois que sua estratégia de segurança recolocou a América Latina como “quintal” dos Estados Unidos.

Trump agora usa pressão militar como um meio para incentivar uma rebelião interna, sobretudo dos militares, à continuidade de Maduro, que fraudou as eleições de 2024, vencidas pela oposição. É possível que fracasse como da primeira vez, quando reconheceu como legítimo presidente Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, e ordenou severas sanções ao comércio de petróleo do país.

Como nas ditaduras, os militares são subornados, mas também estritamente vigiados, no regime chavista. Uma série de negócios lhes foi entregue pelo Estado, como a direção da PDVSA, companhia estatal do petróleo, responsável por 90% das divisas fortes que ingressam no país, a importação e a venda de alimentos subsidiados, companhia de minérios, um banco, entre outros. Nessa condição, eles são sócios do regime e têm interesse em sua sobrevivência.

Mas houve expurgos, porque em um regime fechado, que aniquilou a possibilidade de transmissão de poder pelas vias democráticas e eliminou a liberdade de manifestação da oposição, um golpe de Estado é uma das poucas maneiras de destituir um presidente que se quer vitalício. Os guarda-costas de Maduro e parte do serviço secreto do Estado são cubanos. Com tantos aliados entre militares e serviço de segurança de reconhecida eficácia, é difícil, embora não impossível, que os militares derrubem Maduro. Essa parece ser a principal esperança de Trump, mas há boas razões parar crer que ela será frustrada.

Maduro não tem apoio popular relevante, e o fim de seu regime não deixaria saudades. O chavismo, e Maduro em especial, será lembrado por fatos como o maior êxodo de um país que não está em guerra – estima-se que 7 milhões de venezuelanos deixaram a nação – e a maior debacle econômica em tempos de paz, com uma queda de 60% do PIB entre 2013 e 2023. A década está sendo marcada pela hiperinflação, que atingiu recorde em fevereiro de 2019, quando chegou a 345.000%, segundo a Trading Economics. A fuga pela sobrevivência levou mais de 3 milhões de venezuelanos a migrarem para a Colômbia e mais de 700 mil para o Brasil (de 2015 a 2022).

O bloqueio de Trump piorou a situação econômica, já ruim, da Venezuela. Há de novo escassez de dólares, o bolívar se desvaloriza rapidamente e a inflação de 12 meses em novembro foi de 556%. Maduro conta com o apoio político de Cuba, militarmente irrelevante, e da China e da Rússia, que dificilmente interviriam a seu favor em caso de um conflito armado com os Estados Unidos.

Dada a desproporção de forças, resta saber o que Trump pretende obter e até onde quer chegar, o que não é fácil discernir. Ele prometeu uma insólita recompensa de US$ 50 milhões para quem capturar Maduro, tido pelos EUA como chefe de uma gangue de narcotraficantes. Em suas últimas entrevistas, surgiu outro motivo: um suposto roubo cometido por Hugo Chávez, quando da nacionalização do petróleo, a partir de 2007. O objetivo seria então a volta das petroleiras americanas ao país, com o fim de Maduro.

Trump já bombardeou 28 navios, matou 100 pessoas, supostamente traficantes, e quer fechar o espaço aéreo venezuelano. Recentemente, fez um acordo militar com o Paraguai que permite presença de tropas americanas no país vizinho, sócio do Mercosul, a serem empregadas em caso de uma “tragédia humanitária” em outros países (O Globo, 18-12). Na estratégia de segurança nacional, Trump já manifestou a intenção de apoiar movimentos políticos que defendam interesses dos EUA, como o de Javier Milei na Argentina e como em Honduras, onde deu força nas eleições a um líder de direita, Nasry Asfura.

O intervencionismo de Trump coloca problemas espinhosos para o governo brasileiro. O presidente Lula tem corretamente se oposto ao uso da força e tenta intermediar o conflito, conversando com Maduro e Trump. Seu apoio ao chavismo, só interrompido após Maduro fraudar as eleições, possivelmente não o qualifique para tal diante de Trump. Mas o diálogo, e não a força, é o único meio de impedir tanto que a disputa atual saia do controle quanto que as ações ilegais e arbitrárias do governo dos EUA possam prosperar.



Fonte ==> Exame

Relacionados