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Uma neurocientista vai a Santiago de Compostela – 25/06/2026 – Suzana Herculano-Houzel

Uma neurocientista vai a Santiago de Compostela - 25/06/2026 - Suzana Herculano-Houzel

Terminada a conferência em Bilbao, uma gracinha de cidade, escondida nas profundezas de um vale no norte da Espanha, tirei minha semana de férias, aproveitando que minha passagem transatlântica já estava paga. Eu sugeri o roteiro e meu fiel escudeiro-marido-co-motorista aprovou: rodaríamos pela costa noroeste da Espanha, visitando as praias de falésias que nos parecessem promissoras, em direção ao norte de Portugal, de onde desceríamos de volta a Lisboa para pegar o avião.

Acontece que no meio do caminho tinha Santiago de Compostela, como a pedra do Drummond, embora esta fosse uma pilha bem organizada de pedras, formando uma catedral que dezenas de milhares visitam a cada ano. Resolvi então que a pilha bem organizada de pedras no meio do caminho viraria um de nossos destinos.

Mas não por vocação religiosa, pois, para tristeza da minha falecida avó, não tenho nenhuma. A culpa é em parte dela mesma, que um dia, decerto tentando me converter ao seu catolicismo, soltou um “que pena que seus pais não acreditam em Deus; quando morrerem eles vão para o inferno”. Virei ateia ali mesmo, pois não queria ter nada a ver com um deus que mandasse meus pais pro inferno só por serem incrédulos.

Os crédulos, contudo, veem em Santiago de Compostela um destino sagrado, final de um caminho de peregrinação que promete indulgência plena –além da vista do túmulo que supostamente contém os restos mortais de um Santus Iacobus, encurtado para Iago que com o Santo na frente virou Santiago e degenerou para Tiago.

Não sou peregrina, mas sou neurocientista, e no fim daquele caminho havia duas coisas que me interessavam: a evidente euforia do ato de completar uma longa jornada debaixo do sol escaldante da Espanha e o mistério da promessa de absolvição.

A primeira é fácil de entender e impossível de não notar no rosto e nas ações dos caminhantes congregados na praça da catedral. Fiquei com vontade de ir perguntar “e agora, o que vem depois?”, mas eu já sabia por experiência própria: vêm os pequenos prazeres mundanos, o banho, a bebida borbulhando num copo gelado, um bom prato de comida, e memórias, muitas memórias.

A segunda me escapa enquanto penso na figura de um Cristo torturado pagando pelos pecados alheios, pois não entendo como se espera encontrar nessa imagem absolvição, e não ainda mais culpa. Vou ao PubMed, o repositório de descobertas científicas, à caça de respostas na neurociência da absolvição, mas a princípio só encontro estudos sobre o ato de perdoar, não a experiência de ser perdoado. Perdoar envolve a capacidade cerebral de adotar a perspectiva alheia, o que leva a empatia e ao cancelamento de planos de retaliação. Um monte de coisas boas se segue para quem perdoa, como já escrevi aqui.

Só encontro dois estudos sobre autoabsolvição. Não são estudos funcionais, mas apenas anatômicos, que implicam regiões do cérebro envolvidas em ruminação e sentimentos de culpa e vergonha de si mesmo. Parece pouco, mas me dou conta que, em última análise, só há absolvição verdadeira quando absolvemos a nós mesmos. Talvez o caminho para uns seja um inocente amarrado a uma cruz, e, para outros, peregrinação, terapia ou conversa. Ao final está a mesma coisa: a capacidade de o cérebro ser caridoso consigo mesmo, ressignificar aquela pedra no meio do caminho e voltar a enxergar coisas boas à frente.



Fonte ==> Folha SP – TEC

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