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Vídeo: Lobo remove da água armadilha feita para caranguejo – 23/11/2025 – Ciência

Lobo cinzento olhando diretamente para a câmera com fundo desfocado de pedras.

Onde a floresta tropical temperada encontra o oceano Pacífico perto de Bella Bella, na Colúmbia Britânica, os moradores do território Heiltsuk têm tentando conter um problema envolvendo uma espécie de caranguejo invasora.

Em 2021, armadilhas começaram a ser instaladas para remover a espécie. Mas as estruturas, que consistiam em uma rede com iscas de arenque ou de leão-marinho, acabavam sendo repetidamente e inexplicavelmente destruídas. Algumas delas afundavam a ponto de não serem vistas nem durante a maré baixa.

O ecologista Kyle Artelle, da Universidade Estadual de Nova York (EUA), afirmou que, à época, pensaram que talvez as estruturas estivessem sendo destruídas por lontras, visons ou focas.

Para identificar o autor dos ataques, a estudante de pós-graduação Milène Wiebe, da Universidade de Alberta (Canadá), e o guardião heiltsuk Richard Cody Reid decidiram instalar uma câmera remota em maio de 2024. O que eles registraram no dia seguinte à instalação não era nem um dos suspeitos iniciais.

Era um lobo.

Na filmagem, o canídeo selvagem nada das águas profundas até a parte rasa, rebocando a boia vermelha e branca presa à armadilha. Em seguida, recua em direção à margem enquanto eleva a corda. Depois de soltar a boia e se sacudir para secar parcialmente, o animal retorna à água, recolhe outro pedaço de corda e puxa novamente. Na terceira puxada, a armadilha emerge o suficiente para que ele possa agarrar a própria estrutura.

Então, o lobo rasga a rede para alcançar o copo de isca laranja, devora as iscas e depois vai embora.

Os pesquisadores descrevem a breve filmagem, apresentada em um artigo publicado no último dia 17 na revista Ecology and Evolution, como o primeiro caso documentado de um lobo usando uma ferramenta.

O uso de ferramentas é amplamente definido como o emprego de um objeto externo para alcançar um objetivo específico com intenção, segundo Artelle e o também ecologista Paul Paquet, da Universidade de Victoria na Colúmbia Britânica e coautor do estudo.

Alguns especialistas argumentam, porém, que puxar cordas deveria ser excluído como “uso de ferramentas” porque os seres humanos, e não outros animais, colocaram a corda. Mas, independentemente de o ato do lobo poder ser chamado de uso de ferramentas ou não, ainda assim é um comportamento incrível, na avaliação de Artelle.

“Mesmo que não queiramos chamar isso de uso de ferramentas, o fato de que a armadilha estava completamente submersa e fora de vista torna difícil argumentar que ele não entendeu a conexão entre todas essas etapas”, disse Artelle.

O lobo completou a sequência em menos de três minutos, segundo o pesquisador, o que significou que “isso não foi apenas uma experimentação aleatória”. Ele sugeriu que o comportamento foi inequivocamente proposital.

O uso de ferramentas por animais não humanos tem sido um tema controverso há muito tempo. Jane Goodall (1934-2025) certa vez afirmou que “durante muito tempo, pensou-se que éramos as únicas criaturas na Terra que usavam e fabricavam ferramentas”. Em 1960, a primatologista observou chimpanzés selvagens removendo folhas de galhos e depois inserindo os gravetos descascados em buracos de cupinzeiros para se alimentar.

Desde então, evidências do uso de ferramentas por polvos, corvos, peixes, elefantes, crocodilos e insetos abalaram nossa arrogância de que o uso de ferramentas é exclusivamente humano. No entanto, o debate científico persiste.

Para a ecologista Sabina Nowak, da Universidade de Varsóvia (Polônia), a descoberta não é surpreendente. “Eles são tão inteligentes”, disse ela, que não esteve envolvida no estudo.

A primatologista Susana Carvalho, do Parque Nacional de Gorongosa (Moçambique), observou que a nova constatação reforça as evidências de que o uso de ferramentas por não humanos é mais difundido do que se pensava anteriormente. O que é importante no novo estudo, segundo ela, é que “outra espécie com socialidade complexa é capaz de inovação e resolução de problemas”.

Carvalho também destacou, assim como os autores do estudo, que encontrar este comportamento no território Heiltsuk pode não ser coincidência. Os lobos daquela região experimentam mínima perseguição e perturbação humana, então eles podem ter mais liberdade para explorar e experimentar novas estratégias.

Se aquele lobo é um inovador solitário ou representa um padrão cultural mais amplo, continua sendo um mistério. Mas William Housty, diretor do departamento de gestão integrada de recursos Heiltsuk, suspeita que vários lobos estejam envolvidos. “Você conversa com nossa equipe diariamente, e todos os dias eles chegam com caixas de isca arrombadas.”

Housty tem grande respeito pela espécie e não se surpreende com a inteligência dos lobos. “Às vezes, esquecemos que as espécies ao nosso redor são tão inteligentes quanto nós.”



Fonte ==> Folha SP – TEC

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