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Violência no trânsito mata mais, mas tem menos atenção | Opinião

Violência no trânsito mata mais, mas tem menos atenção | Opinião

A violência ligada ao crime organizado no Brasil ganhou destaque após a operação policial que resultou num recorde de 122 pessoas mortas (sendo cinco policiais) no Rio de Janeiro, no fim de outubro. A segurança pública se tornou a segunda principal preocupação dos brasileiros, depois da saúde e à frente da economia, segundo pesquisas. Diante do ano eleitoral, os governos estaduais e federal e o Congresso se mobilizam para dar respostas à sociedade. Mas outra forma de morte violenta continua ceifando a vida de dezenas de milhares de brasileiros todos os anos sem que haja o mesmo nível de clamor popular nem reações tempestivas das autoridades. Somos um dos países onde o trânsito mais mata no mundo.

A mortandade no trânsito, por acidentes ou atropelamentos, constitui uma chaga possivelmente menos difícil de resolver, ou ao menos de mitigar, do que a da violência da criminalidade. Ainda assim, enquanto os homicídios estão em queda no Brasil desde 2020, as mortes nas nossas ruas, avenidas e estradas vêm aumentando desde então.

O pico dessas mortes ocorreu em 2012, com 44.812. A partir de 2015 os números melhoraram até atingir 31.945 em 2020. Depois disso houve piora em todos os anos. Em 2023, o país teve 34.881 vítimas mortas no trânsito — último ano para o qual há dados do Ministério da Saúde. Informações de outras fontes sugerem que o número voltou a crescer em 2024. É o que indica o mapa da segurança pública do Ministério da Justiça, que detectou 8,94% a mais de mortes em acidentes de trânsito no ano passado (os números absolutos não são comparáveis com os do Ministério da Saúde). No mesmo sentido, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) divulgou em outubro um aumento de quase 10% nas mortes nas rodovias em 2024.

Um estudo do Ipea relacionou o aumento de mortes no trânsito a partir de 2021 à retomada da economia. A melhora na renda gera crescimento da demanda por transporte, o que coloca mais veículos em circulação, e isso acaba gerando mais acidentes fatais. Do mesmo modo, a queda das mortes entre 2015 e 2020 teria tido como principal fator a desaceleração econômica naquele período e a pandemia de covid-19, que reduziu a circulação de veículos.

Mas a melhora da renda não é o único fator que explica essa oscilação no balanço de mortes no trânsito. Políticas públicas também influenciam. O aumento do efetivo policial, por exemplo, ajuda a reduzir a taxa de mortes, diz o Ipea. Já a disparada no número de motocicletas em circulação, em parte devido ao crescimento das plataformas de entrega, eleva a mortalidade (quase 39% dos mortos em 2023 eram motociclistas). Outro estudo aponta que a decisão do governo de Jair Bolsonaro, em 2019, de proibir a PRF de fiscalizar a velocidade nas estradas fez crescer o número de acidentes com vítimas naquele ano.

O exemplo mais clamoroso do impacto de políticas públicas é o feito obtido por Helsinki. A capital da Finlândia, que tem cerca de 690 mil habitantes, conseguiu ficar por mais de um ano sem uma única morte no trânsito, entre julho de 2024 e agosto de 2025. Para efeito de comparação, a cidade de Cuiabá, com população similar, teve 49 mortes no trânsito só nos primeiros 7 meses deste ano. Esse resultado excepcional de Helsinki se deve à aplicação do Vision Zero, uma estratégia de segurança viária criada na Suécia nos anos 90 e cujo objetivo é justamente zerar as mortes e ferimentos graves, sob o princípio de que nenhuma morte no trânsito é aceitável.

Entre as principais medidas adotadas estão: a redução dos limites de velocidade urbanos (mais de metade das ruas de Helsinki tem limite de 30 km/h); a reforma da infraestrutura viária para aumentar a segurança de pedestres e ciclistas, o que inclui ciclofaixas segregadas, travessias elevadas, calçadas largas, iluminação melhor e ênfase no transporte coletivo; o reforço de fiscalização, com o uso intensivo de câmeras e radares; e campanhas de informação e conscientização.

Acabar com a alta da mortalidade no trânsito no Brasil também exigirá esse tipo de esforço integrado. Porém, o que se percebe é que não só não tem havido atenção a essas medidas, como algumas delas até mesmo foram afrouxadas pelos vários níveis de governo. Foi o caso da pontuação para ter a CNH suspensa, que foi elevada em 2021. Isso acaba estimulando a infração, ao dificultar a punição. O Atlas da Violência, também do Ipea, destaca ainda que os recursos destinados à segurança no trânsito tiveram cortes significativos nos últimos anos, o que denota a falta de prioridade.

Além da tragédia pessoal e familiar, as mortes no trânsito têm elevado impacto econômico para o Brasil. Somente em 2024, o SUS gastou R$ 449 milhões com internações de vítimas de acidentes de trânsito no Brasil, segundo levantamento do Ipea com base no Datasus. Esse valor inclui desde atendimentos de emergência até reabilitação prolongada e fornecimento de órteses e próteses. A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) estima que os acidentes de trânsito consomem entre 1% e 3% do PIB nos países da América Latina.

O sentido de urgência que vem sendo dado ao combate à criminalidade precisa abarcar também a questão da violência no trânsito. E a aceleração das mortes nas ruas e estradas tem de ganhar mais atenção no radar das autoridades.



Fonte ==> Exame

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