Saíram os primeiros dados de observação do planeta Trappist-1 e pelo Telescópio Espacial James Webb, um dos mais promissores daquele sistema planetário para sinais de habitabilidade. E os resultados, publicados em dois artigos no Astrophysical Journal Letters (aqui e aqui), são pouco conclusivos.
Descoberto em 2016, o sistema Trappist-1 ficou famoso por ter sete planetas rochosos, com três deles na zona habitável em torno de sua estrela, uma anã vermelha a apenas 40 anos-luz daqui. Havia grande expectativa sobre o que o Telescópio Espacial James Webb pudesse descobrir desses mundos, quem sabe até identificando algum deles como potencialmente ameno à existência de vida.
Esses trabalhos vêm sendo conduzidos a pleno vapor, mas até agora com pouco motivo para entusiasmo. Os três planetas mais internos, b, c e d, já foram observados e, ao que tudo indica, não têm atmosfera. Isso até era esperado, porque estão mais submetidos às ferozes explosões estelares que marcam todas as estrelas anãs vermelhas, mesmo as mais calminhas (e velhas), como é o caso de Trappist-1.
Mas alguns astrônomos (os mais otimistas) têm esperança de que os mundos mais distantes daquele sistema (que é extremamente compacto, todas as órbitas dos planetas caberiam dentro da de Mercúrio se estivessem aqui no Sistema Solar) pudessem ter mais chance de preservar uma atmosfera —a começar por Trappist-1 e.
As observações do Webb são baseadas em quatro trânsitos do planeta à frente de sua estrela-mãe, em que o telescópio capta raios de luz que passaram de raspão por uma hipotética atmosfera antes de chegar a ele, trazendo consigo a assinatura de sua composição. Mas quatro passagens é muito pouco para tirar grandes conclusões. Até agora, os dois artigos, liderados por Néstor Espinoza, do Instituto de Ciência do Telescópio Espacial, em Maryland, e Ana Glidden, do MIT, em Massachusetts, são melhores em dizer o que o planeta não tem.
Para começar, ele não tem sua atmosfera primária —aquela com que ele teria nascido, baseada em hidrogênio e hélio. Super esperado. Nem a Terra tem sua atmosfera primária, e sim uma secundária, gerada pelo próprio planeta a partir de atividade geológica (essencialmente vulcanismo cuspindo gases para cima) e mais tarde moldada pela vida.
Talvez Trappist-1 e tenha uma atmosfera secundária, mas já dá para descartar algumas hipóteses. Ela não é, por exemplo, uma em que predomina o dióxido de carbono (como as de Marte e Vênus). É possível que tenha uma baseada em nitrogênio (nesse sentido como a terrestre, mas só nesse sentido), com alguns toques de metano. E ela pode nem existir —os resultados são ruidosos o suficiente para serem compatíveis também com a ausência de uma atmosfera.
Nesse momento, o que dá para comemorar é que os pesquisadores estão aprendendo a usar o Webb para obter dados mais precisos, fugindo da interferência causada pela própria atividade estelar. O grupo teve uma ideia para “limpar” o sinal do planeta em futuras observações — observar em rápida sucessão um trânsito do planeta b, sabidamente sem atmosfera, e um do planeta e, pegando nos dois as mesmas condições da estrela. Aí é possível subtrair um espectro do outro, deixando só o que corresponde ao sinal vindo da cogitada atmosfera de e.
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Fonte ==> Folha SP – TEC