O Brasil reúne condições únicas para se tornar uma potência da segurança alimentar, energética e mineral no mundo que emerge das turbulências geopolíticas da última década. O diagnóstico, porém, vem acompanhado de um alerta: o país corre o risco de desperdiçar mais uma janela histórica se continuar debatendo o passado em vez de construir o futuro.
A avaliação é de Izabella Teixeira, ex-ministra do Meio Ambiente, e de Luciana Antonini Ribeiro, fundadora e presidente executiva da Flying Rivers Capital. As duas especialistas participaram do programa O Clima na Faria Limaapresentado por Marina Cançado, e foram categóricas: o Brasil precisa parar de se contentar com o que já foi feito e assumir protagonismo nas decisões que vão moldar as próximas décadas.
Potencial real, decisões adiadas
“O problema do Brasil não é o potencial”, afirmou Izabella. Para ela, o país construiu, ao longo de cinquenta anos, uma base energética invejável — do etanol ao pré-sal, das hidrelétricas à energia eólica e solar —, mas ainda debate essas conquistas como se fossem novidade, em vez de usá-las como plataforma de lançamento.
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“Não dá para pequenizar o Brasil assim”, disse a ex-ministra, lembrando que a Petrobras (PETR4) é hoje a empresa com a tecnologia mais avançada do mundo em exploração de águas profundas.
O mesmo raciocínio vale para a agricultura. O Brasil saiu de importador de alimentos para se tornar uma das maiores potências alimentares do planeta. Agora, com energia mais barata e enorme potencial de irrigação, o país tem nas mãos uma nova fronteira de crescimento que ainda não foi integralmente explorada.
O mundo mudou; o Brasil ainda debate o passado
Izabella foi direta ao apontar o principal entrave. “A sensação que eu tenho é que nós ainda discutimos as decisões do passado”, disse ela. Para a ex-ministra, o cenário geopolítico global se transformou de vez — não está mais em transição —, e as velhas premissas sobre comércio, desenvolvimento e clima precisam ser revisadas com urgência.
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Luciana concordou e acrescentou um ponto central: o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que levou 25 anos para ser fechado, ainda é debatido com um olhar de 25 anos atrás. “A gente fica discutindo proteína animal e soja, enquanto a discussão efetiva deveria ser sobre segurança energética, minerais críticos e novas moléculas”, afirmou. Para ela, existe aí um jogo em que todos poderiam ganhar, se o protecionismo e os preconceitos do passado fossem deixados de lado.
O dinheiro existe — falta projeto bancável
Do ponto de vista dos investidores, Luciana traçou um panorama mais otimista do que se poderia imaginar. O investidor internacional olha para o Brasil e para a América Latina com curiosidade crescente, especialmente depois que a questão da segurança energética passou a dominar a agenda geopolítica global. Minerais críticos, biometano, etanol e fontes renováveis atraem capital de olho em ciclos de dez anos ou mais.
Mas há um obstáculo persistente. “Existem recursos financeiros para muitas das temáticas que estamos discutindo”, disse Luciana. “O problema é que muitos projetos ainda não estão prontos para receber esse capital.”
Faltam cadeias de fornecimento consolidadas, regulação definida, compradores garantidos e, em alguns casos, o chamado “prêmio verde” — uma remuneração adicional pelo menor impacto ambiental, que ainda não foi equacionada no mercado. Sem essas condições, mesmo o investidor de longo prazo hesita em colocar dinheiro.
O Brasil não é só governo
Izabella foi contundente ao criticar a visão de que tudo depende de Brasília. “Existe um vício no Brasil de achar que tudo começa e termina com o governo”, disse ela. As decisões estratégicas sobre petróleo, desmatamento, bioeconomia e reindustrialização precisam envolver o setor produtivo, o mercado financeiro, a academia e a sociedade civil — não apenas ministros e assessores.
A ex-ministra deu um exemplo concreto: a decisão de o Brasil produzir ou deixar de produzir petróleo não cabe a um grupo ambiental nem a um técnico de agência reguladora. É uma escolha nacional, que deve passar pelo Congresso, pelo governo e pela sociedade. “As decisões precisam ser estruturadas. Não podem ser feitas com base no achismo”, afirmou.
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Floresta, fome e indústria no mesmo pacote
No encerramento do debate, as especialistas convergiram para uma visão integrada do país que o Brasil pode — e precisa — se tornar. Uma agricultura tropical sem desmatamento que também acabe com a fome interna. Uma bioeconomia que só funciona com infraestrutura logística. Uma reindustrialização que aproveite as vantagens competitivas já construídas em energia e recursos naturais.
“O clima, para mim, é a nossa grande vantagem competitiva”, resumiu Luciana. “Mas a gente tem que saber trazê-la dentro do que a gente quer ser como país. Isso tem a ver com indústria, não só com floresta.” Izabella completou: “Nós somos um país com alternativas. Precisamos apenas escolher quais vamos querer.”
Fonte ==> Exame